Conheça o já vasto curriculum de um jovem Maestro de 22 anos, natural das Taipas
Quinta-feira, Setembro 29, 2005

Joaquim Filipe tem 22 anos. Natural das Taipas faz parte de uma família de músicos por excelência. Foi músico na banda das Taipas durante onze anos e mostra nesta entrevista o seu descontentamento pela forma como funciona aquela que poderia ser a melhor banda do país. Hoje é, ainda, maestro da Banda de Aboim da Nóbrega. Acaba de aceitar fazer parte de um projecto de pedagogia artística na Região Autónoma da Madeira.

Começando pelo princípio, podemos traçar o percurso da sua carreira como músico. Onde é que tudo começou?
Sempre fiz a minha vida nas Taipas. Estudei nas Taipas, onde fiz a primária e também a preparatória. Depois do quinto ano ingressei no conservatório. Não posso deixar de referir que a minha iniciação musical aconteceu, por volta dos sete anos, com o órgão e com o professor António Silva, numa loja aqui no Centro Comercial Passerelle. Os estudos musicais mais sérios continuaram na banda das Taipas. Na altura havia apenas um professor para todo o tipo de instrumentos.
Foi nesse período que despertou para a música e que assumiu que a música seria uma coisa central na sua vida. Lembra-se de algum aspecto que determinou essa decisão?
Há um conjunto de aspectos importantes. O meu avô, o Joaquim Barreto, que é um marco histórico na Banda das Taipas e que foi músico durante muitos anos. Eu tinha uma relação muito próxima e especial com ele. Desde pequeno que esse avô me dizia que quando fosse grande iria ser como ele: “Tu vais ser como eu: grande, forte e músico”. E eu gostava que me dissesse aquilo.
Em Braga, no conservatório, depois dessa decisão, como correu?
Em Braga, no início, foi um bocado complicado: eu ainda era pequeno, tinha que ir de autocarro. Comecei na classe de trompete, que fiz até ao quarto grau. Depois, por convite e conselho do professor Alexandre Fonseca – a quem eu devo muito e a quem recorro ainda hoje – mudei para a tuba. A tuba, na altura, não era um instrumento que se estudava no conservatório. É um instrumento estranho da classe dos metais, mas que é cantável, com linha melódica como qualquer outro instrumento. Tive também aulas de música de câmara e prática instrumental.
Hoje, para além da actividade como músico, ensina também música. De que forma transmite a mensagem da música aos seus alunos?
Trabalho com crianças dos seis até aos quinze anos. Para se ser músico, é necessário que se goste verdadeiramente de música. É importante também haver empenho, trabalho e dedicação. São necessárias horas de estudo e de prática.
Como capta a atenção dessas crianças e as incentiva a todo esse empenho?
Do meu ponto de vista tudo parte da motivação de cada um. Tento manter uma postura de um amigo para além de ser professor. Sei que há quem diga que não é a melhor forma de ensinar. Mas penso que tem que existir uma relação professor aluno. No fundo, ser um colega ou trabalhar como se fosse um colega. Penso que não se consegue nada assumindo uma posição prepotente.
Hoje tem a direcção artística de uma banda, que foi o culminar de todo esse percurso. Qual a importância que teve a sua passagem pela banda das Taipas?
Eu fui músico na banda das Taipas durante 11 anos. Depois, percebi que havia vários factores que não funcionavam como deviam e saí da banda das Taipas. Saí, mas não tenho problemas com ninguém. Infelizmente, o que se passa nas Taipas é que quando um músico sai são cortadas as relações com a banda. Taipas sempre foi uma “fábrica” de músicos. Os melhores músicos que andam por aí em bandas são das Taipas. Só que, quando chegam a certo patamar, abandonam a banda porque não há condições e não estou a falar só da remuneração. São outros factores.
O que é que falta à banda das Taipas?
A banda das Taipas podia ser a melhor banda do país, porque tem matéria para isso. Enquanto existir uma dinastia na banda e enquanto funcionar como uma empresa, a banda não consegue crescer. A banda das Taipas tinha que ser dirigida por uma pessoa de fora. Uma coisa que gosto na banda de Aboim, é o ambiente que se vive. É com dificuldade que digo isto, mas, a banda das Taipas já foi “a banda da Taipas”.
Referiu-se à banda de Aboim como tendo um bom ambiente. Como caracteriza esse ambiente que, pelo que também diz, não existe na banda das Taipas?
Lá existe ambiente. É um meio rural e são todos músicos amadores. Eu não tenho músicos estudantes de conservatório ou estudantes de academia como tem aqui a banda das Taipas. Lá as pessoas trabalham não por dinheiro mas por amor à arte. Os músicos não recebem em todas as festas, mas sim e apenas no fim da época. Uma banda de música não é uma empresa.
Como é que aparece como maestro da banda Aboim da Nóbrega?
Eu entrei para a banda como músico. A dada altura o maestro que estava lá teve que sair e eu apresentei-me, entre outros, e fui escolhido. Mas o que me prende àquela banda é o povo, que tem um encanto extraordinário. É a eles que devo o respeito pela oportunidade que me deram.
Ser maestro representa uma dificuldade acrescida?
Sem dúvida. Ser músico é difícil, mas ser maestro é-o muito mais. Sei que ainda tenho muito que aprender. Primeiro, porque tenho que dominar diversas áreas. Não é só ter conhecimentos a nível musical, mas também a nível cultural e a nível pessoal.
Durante um concerto na Madeira, acabou por ser convidado para fazer um trabalho com a autarquia. Em que consiste e como vai conciliar esse trabalho com a direcção da banda de Aboim?
Fui convidado para professor de educação artística e musical. Vou trabalhar com cerca de 150 miúdos. Na Madeira a cultura musical funciona de maneira muito séria. Não só ao nível da música, mas ao nível das artes de uma forma geral. Por isso, há também outras oportunidades que não há cá no continente. Com a banda de Aboim está uma proposta em cima da mesa que estou a estudar com a direcção da banda.

Entrevista e fotografia de Paulo Dumas
paulodumas@reflexodigital.com

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