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Conceitos de sempre… para sempre…
Sexta-feira, Maio 14, 2010

Cada idade tem o seu quê de maravilhoso e tenho-me dado bem com todas. Da inconsciência e inocência da infância, à inconstância e turbulência da adolescência, à calma, ao saber-ser e à produtividade da fase adulta, tudo passou num breve pestanejar. Quando olhos para trás, o percurso é já longo e ramificado. E um dos ramos da árvore que construí, o principal, ficou pela zona de Caldelas, há já 30 anos.

O tempo foi passando e a “ferrugem” começa a atacar o físico aqui e ali, numa dorzita embirrenta, mas, psicologicamente, sinto-me mais jovem do que muitos daqueles que entrevisto para o preenchimento de vaga a nível da escola. Sendo da “velha guarda” e, ainda por cima, tendo vivido uma revolução, admiro-me com a falta de perspectivas dos jovens, com a escassez de projectos, com a ausência de sonhos. Diz António Gedeão na sua Pedra Filosofal que “o sonho comanda a vida e sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança”. Como pode o mundo desenvolver-se sem sonhos? Que será da vida se não a enfrentarmos e não arranjarmos um novo projecto, rapidamente, quando ela se decide a pregar-nos uma partida? Todos temos e vivemos momentos bons e momentos maus, alegrias e tristezas, mas… para a frente é o caminho, é proibido estagnar.

Como educadora, sinto-me e sempre me senti uma privilegiada, na medida em que contacto, diariamente, com a juventude. Amante da ficção científica, alimento-me da energia dos jovens qual vampira sedenta do sangue alheio. É tão bom respirar as suas gargalhadas, colher as suas ideias (até as mais idiotas!), protestar contra as suas faltas de “educação”, tentar inculcar-lhes valores que não lhes dizem nada e lhes são hostis.

“Deus, Pátria e Família”, três conceitos à volta dos quais girava e girou toda a minha formação desde a infância até à idade adulta. Hoje, deixaram de existir ou estão esquecidos ou são frontalmente postos de lado. A religião foi marginalizada. A escola é laica, dizem, mas as práticas são católicas. A pátria arrisca-se a ser aglutinada por um bem maior – a União Europeia – e os seus símbolos são esquecidos. Foi preciso um Euro 2004 e um Scolari para se verem bandeiras portuguesas desfraldadas ao vento e se ter um cheirinho do significado de “patriotismo”. A noção de pátria desapareceu. No meu tempo, éramos bairristas (ninguém dissesse mal da nossa cidade / bairro) e patriotas, pois sentíamo-nos ligados a Portugal por vínculos afectivos, culturais, valores e história. Ainda vibro quando vejo um qualquer clube português que chega ao final de um campeonato, de um torneio, de uma competição… Revejo-me e festeja quando um atleta, um músico, um escritor português vence um prémio internacional. Também é verdade que trato a história do meu país por tu, o que não acontece com as gerações mais recentes que não gostam do passado. Tudo que é passado passou, não tem interesse… não gostam do cheiro a mofo. O presente é que lhes interessa, quando interessa, e a aquisição de conhecimentos não os preocupa porque têm tudo ao alcance da mão, na Internet. O último conceito – família – perdeu também todo o peso do antigamente. Nos dias que correm, os jovens partem para uma relação aberta numa de “enquanto der dá e depois logo se vê”. Os filhos são os grandes lesados e pagam a factura que é bem alta, demasiado, por vezes.

Tendo vivido a Revolução de cravo ao peito e tendo entoado as canções de intervenção, neste meu regresso ao passado imposto pelo Abril que tanto tem rido como chorado, não pude deixar de recordar o que de muito positivo houve na minha infância e que, acho, falta hoje. É, sem dúvida, um repisar as passadas dadas, mas, quando vale a pena, debatamos o mesmo tema vezes sem conta. “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura” e pode ser que os mais novos dêem ouvidos a esta “cinquentona” que não tem medo de pôr os pontos nos is e de dizer de sua justiça, liberdade que adquiriu no 25 de Abril e que, da mesma forma, lhe foi facultada pela idade.