Coisas de ontem e de hoje (XXVII)
Sexta-feira, Agosto 2, 2002

À vertente da instrução que nos dispensaram e nos fez apaixonar, além de outros conhecimentos, pelo ensino da língua materna e da nossa História gloriosa, teremos de juntar o autêntico espírito de missão com que nos formaram à sombra da célebre trilogia, DEUS-PÁTRIA-FAMÍLIA, condensada na Moral e Educação Cívica, do Plano Escolar desses saudosos tempos e que serviu de base a esta trajectória vivencial que me tem acompanhado desde então. Disso espero ocupar-me, se Deus me der vida e disposição, quando retomar a “Romagem ao Passado” que a “reportagem” sobre a vida militar interrompeu. Por agora fica registada a homenagem, simples mas repleta de simbolismo, prestada nas sepulturas desses insignes professores, nos cemitérios de Sande e Ronfe no passado dia 13 de Julho.
Foi, integrada noutra jornada de reconhecimento ao grupo coral “Flor de Liz” pela sua participação no badalado XXV encontro da Velha Guarda Jocista aqui, no “Reflexo”, descrito na última “crónica”, que nesse dia, manhã cedo, “cantando e rindo”, confiados nas mãos seguras do motorista Alves da ARRIVA, lá partimos a caminho da “nobre e sempre noiva” Vila de Trancoso, no coração da Beira-Alta. Terra carregada de História, ligada à gesta da Fundação de Portugal que Afonso Henriques aqui, na nossa Guimarães, iniciou emancipando-nos dos seus parentes leoneses e castelhanos e alargou por aí abaixo “ a golpes de lança e de montante, conquistando terras aos moiros em mil heróicos e desiguais combates” como eu declamava na minha Escola, há quasi setenta anos, reproduzindo o primeiro texto do livro de Leitura para a 4ª classe do Ensino Primário Elementar, que religiosamente conservo e que tantas vezes, com que emoção, folheio a reviver aqueles saudosíssimos tempos!
Nos seus anais se insere a Batalha de Trancoso, na campanha da Independência, desferida a 29 de Maio de 1385, escassos meses antes da célebre Aljubarrota que ainda hoje está atravessada na garganta de nuestros hermanos…
Ali teve lugar o casamento do Rei D. Diniz com a taumaturga que transformou o pão em rosas, D. Isabel de Aragão, celebrado na Igreja de S. Bartolomeu que os tempos fizeram desaparecer mas que está representada por uma capela, no mesmo lugar e com o mesmo orago, no Campo da Feira, fora das muralhas.
Eram dali naturais o lendário João Tição, o do famigerado grito “morra o homem, fique a fama”; o célebre Magriço que integrava os “Doze de Inglaterra” e o afamado Bandarra, sapateiro de profissão – meto a sovela nas viras!…- que, qual réplica de Nostradamus, “previu” acontecimentos que se têm dado pelos tempos fora e que se encontra dignamente sepultado no interior da igreja de S. Pedro dentro das muralhas que cercam esta histórica e importante vila. Vila, sim, com orgulho dos seus naturais, em contraste com a pedantaria de novos-ricos, aqui bem perto de nós, que promoveram a cidades, terras cujos atributos não lhe permitiriam ir além de meras vilas…
Mas para nós, vimaranenses, a mais agradável surpresa é encontrarmos no seu Centro Histórico, a seguir a um dos mais belos pelourinhos portugueses, uma igreja dedicada a Santa Maria de Guimarães! Monumento Nacional, guarda em nicho incrustado na parede da capela-mor, cujo tecto está coberto de maravilhosas pinturas, a imagem que tem todas as características das que, com a de Nossa Senhora da Oliveira, estão espalhadas em Portugal e que, por sua vez, se relacionam com a de Notre Dame de Roc-Amadour que já tive a ventura de visitar em uma das mais lindas regiões do sul de França, bem perto de Brive, encantadora cidade geminada com Guimarães.
Durante a Eucaristia que o nosso pároco celebrou nessa bela igreja, pelas almas dos nossos homenageados da manhã, o ambiente criado com a interpretação da maviosa “Missa do Peregrino” pelo nosso grupo coral, a intimidade que se instalou naquele grupo de sandinenses de todas as idades em que a presença da vizinha Marieta tão bem se integrou – também foi aluna da D. Emília -, tudo contribuiu para que ali fossem vividos momentos de intensa espiritualidade.
A seguir foi o ataque aos farnéis na companhia amiga dos trancosanos, antigos camaradas da vida militar, Paulo Saraiva, do Pires e do Júlio dos Milagres a que se juntaram as suas mulheres bem como a presença que tanto nos sensibilizou, do Senhor Comendador Jorge Figueiredo e do “nosso” Albano de Metralhadoras 1, que da sua Figueiró da Granja, das terras de Fornos de Algodres, se deslocou para nos dar a grande alegria de estar presente no meio de nós.
Foi uma tarde em beleza passada à sombra deliciosa do frondoso Parque Municipal que, com o aquecimento natural dos “co-mes e bebes”, não podia ter outro remate que não fosse o bailarico com a concertina que o Duque freneticamente fazia agitar!
Todos estes ingredientes criaram um estado de espírito que teve como corolário a feliz proposta do ilustre e erudito Comendador Figueiredo, de que Guimarães e Trancoso se deveriam geminar. Uma salva de palmas de toda a gente, plebiscitou a ideia. Resta que quem de direito leve à prática a sugestão tanto mais que as duas terras já fazem parte da Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico.
Será uma oportuna ocasião para que ao actual Terreiro das Freiras, em frente à Igreja dedicada à “companheira” de Nª SRª da Oliveira, seja de novo dado o nome de Terreiro de Guimarães que já teve em não muito recuados tempos…

Longos, 15 de Julho de 2002
Por José Ribeiro

Ao Saudoso Professor João Rodrigues Marques, que mais de uma geração teve o privilégio de o ter como mestre e educador, a gratidão dum grupo de alunos que, neste mesmo dia, passará em romagem de saudade pela campa da sua colega D. Emília Pimentel, na sempre lembrada Escola das Gaias de Sande, terra que Ele devotadamente serviu e que a ingratidão e ignorância de autarcas apoucados e ignaros votaram ao esquecimento. Como não queremos ser acusados de semelhante “pecado”, aqui deixamos estas flores, símbolo do nosso reconhecimento, com a promessa, a que seremos fiéis, de que jamais o afastaremos da nossa memória agradecida.

À inolvidável D. Emília Pimentel professora vinda lá dos longes de Mirandela, com mais duas irmãs e colegas, a D. Ália e D. Rita, dos tempos em que, com João Rodrigues Marques, Sande beneficiou do autêntico sacerdócio, como era vivido o ensino nas saudosas escolas primárias daqueles anos difíceis, mas felizes, nas décadas de 1930 e 1940.
As lições que dos dois recebemos, mormente no estudo da nossa Língua Portuguesa e no da História Pátria, foram-e são!- manancial riquíssimo de valores que tanto enriqueceram as nossas vidas.
A Eles a nossa eterna gratidão!

Sande e Ronfe, 13 de Julho de 2002