Classe de Vergonha – Que palavras tão infelizes
Quinta-feira, Novembro 4, 2004

Cismada, embalada pelo barulho monótono da chuva que bate na vidraça num Outono rigoroso que mais parece um Inverno antecipado, perco-me em considerações reflexivas sobre os acontecimentos recentes que, infelizmente, ensombraram a vila e colocaram em causa uma instituição que trabalha em prol desta comunidade há 33 anos. Apenas me ocorre um comentário curto e incisivo: É lamentável!
«Palavras loucas orelhas moucas» dizia a minha avó, quando por qualquer motivo havia zangas. Cresci sob a influência de tão sábias palavras que não manifestam uma fuga à luta, são antes uma potentíssima arma que a maior parte das pessoas não domina, por muito cultas que sejam. É difícil calar quando apetece gritar, fazer ouvir a nossa indignação. Contudo, quando vim para as Taipas, há mais de vinte e quatro anos, passei a ouvir um outro ditado, bem ao jeito destas gentes – «Quem não se sente não é filho de boa gente». Então, há que protestar, lançar a nossa voz aos ventos.
Enquanto elemento do Conselho Executivo do Agru-pamento de escolas desta vila, face ao acontecido, fiquei na dúvida sobre como actuar. Para que lado ia pender? O meio e a comunidade envolvente influenciam o nosso comportamento, as nossas atitudes e, neste momento, tenho tanto tempo de vida na cidade invicta como nesta zona minhota.
Confesso que estive tentada a deixar-me levar pelo lado mais recente da minha vida e «ser filho de boa gente», mas depois resolvi seguir as minhas raízes, dar uma boa gargalhada de desprezo, fazer «orelhas moucas» a tantas «palavras loucas» e fazer o meu texto apenas lançando aos ventos um epíteto que foi dirigido aos professores: CLASSE DE VERGONHA. Quem quiser que o agarre! Que palavras tão infelizes! Onde estaria o autor destas palavras se não fossem os elementos desta classe que o ensinaram, o guiaram ao longo de tantos anos da sua vida e por tantos graus de ensino?
Se alguém nos marca profundamente ao longo da nossa existência é a tal «classe de vergonha» – os que foram nossos professores, nomeadamente o professor do 1º ciclo. Não é novidade para ninguém que a recordação deste professor se mantém ao longo da vida, pois que o laço afectivo estabelecido entre a criança e o seu professor dos primeiros anos da infância permanece imutável e imorredoiro. Com os que vêm depois, já não há esta ligação privilegiada, embora alguns alunos continuem a reconhecer que os professores tiveram um papel decisivo na sua formação e apareçam, com frequência, para uma «visitinha». É tão gratificante!
E, se há alguns professores cuja influência até possa ter sido nefasta ou negativa (porque os há e todos nós os tivemos!), há outros que nos influenciam de tal forma positivamente que até nos dão o rumo para a nossa vida profissional. Nós somos o fruto da educação que recebemos e esta, maioritariamente, é recebida fora de casa, junto dos professores, dos amigos, dos adultos, da comunidade em geral, nos tempos de hoje ainda mais do que nos de ontem, uma vez que a escola é vista como a principal responsável pelo acompanhamento permanente das crianças e dos jovens (para não dizer local de armazenagem, como continua a ser vista por muitos encarregados de educação). Só que a escola sozinha, não consegue inculcar nos jovens o que lá não está. E «a falta de chá» é uma realidade crua da nossa sociedade actual.
Gostei de ver na comunicação social que a classe docente foi objecto de demonstrações públicas de afecto pelas comunidades de certas zonas do país e não apenas por causa do atraso na colocação dos professores. Basta ver o que associações de pais fizeram em prol da educação dos seus filhos, ao lutarem pelos professores que aí não haviam sido colocados, alguns já com muitos anos de trabalho nessas terras. Ainda bem que há quem olhe para os outros e não fique embevecido a olhar para o seu próprio umbigo e para as suas pequeninas coisas, tão mesquinhas.
Que eu saiba, em todas as «classes», há elementos que envergonham os outros, em todas as profissões há profissionais bons e maus, aliás facilmente identificáveis pelos seus pares. Por vezes, a comunidade que nos rodeia pode parecer que está a dormir, mas está bem desperta e atenta às insinuações, aos atropelos que se vão fazendo, principalmente quando em nome dela própria.
Todos nós, adultos, sabemos que não devemos rotular ninguém e muito menos usar esse facto como arma de arremesso, não vá ele ter o efeito de boomerang e cair-nos em cima.
«Classe de vergonha», «classe de vergonha» foi um dito que ecoou, fez ricochete e continua a fazer nos muros da «escola», onde foi proferido, e continua a entrechocar com as paredes que não aceitam o epíteto, porque imerecido e impróprio. É inaceitável que tal frase tenha sido proferida numa escola; por isso, ela se tem mantendo a ecoar nas paredes da «minha classe», a docente, à qual pertenço com muita honra.
Tenham cuidado, porque a carapuça, irritada por ainda não ter arranjado uma cabeça onde assentar, anda por aí a bater nas paredes da vila, à procura de uma nova classe para classificar! Por isso, fechem as portas e as portadas, calafetem as janelas, não vá o tal dito malandro, maroto, maléfico e maldoso conseguir uma pequena frincha por onde se esgueirar…

Outubro 2004