“Cidade morta”, Citânia viva
Quinta-feira, Julho 7, 2016

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Fotografia Marco Jacobeu

A expressão “cidade morta” foi usada em tempos para designar alguns castros e citânias, sendo certo que a expressão em si, em parte popular, em parte erudita, se poderia aplicar a qualquer contexto histórico, quando nos referimos a um antigo centro urbano do qual apenas restam memórias, físicas ou mesmo até escritas. A “cidade morta” de Guimarães fica em Briteiros e é, sem dúvida, o local da primeira cidade existente neste território. Interpretar as memórias que nos ficaram dessa cidade é uma tarefa complexa e arriscada, porque nos movemos num terreno por vezes pantanoso. Trabalhamos muitas vezes com hipóteses, umas mais prováveis que outras. Transmitir esse conhecimento implica partilhar o processo com o público, ou seja, que este público, que integra turistas, pessoas curiosas, estudantes, membros da comunidade local, tenham consciência de que não sabemos muito, e o que sabemos muitas vezes é apenas provável.

Talvez a expressão “recriação histórica” não seja a mais adequada a uma iniciativa que é, no fundo, mais uma encenação de temática histórica. É um meio, entre muitos, de transmitir conhecimentos e de, por exemplo, fazer uma “cidade morta” reviver de novo. Nunca reviver nos mesmos moldes. Não poderíamos, nem quereríamos, reviver uma época que, com as nossas mentalidades de século XXI, jamais iríamos compreender. Fazer reviver uma cidade através de uma encenação histórica é uma forma de sentir um monumento arqueológico de forma alternativa, com pessoas, objetos, sons, cheiros, cores… no fundo, de forma a que tenhamos consciência de que estamos num local por onde passaram muitas vidas, alegrias, desgraças, fortuna, pobreza, querelas, paz, mentes incompreendidas, mentes brilhantes, stress e afectos. Sobretudo, interessa transmitir a forma como uma comunidade, de dimensões consideráveis para a época, se procurava organizar, interagir com o meio e com os vizinhos e, no fundo, subsistir. Este objetivo é delineado para o público, mas também para os figurantes. É por isso que a “Citânia Viva” é organizada pela comunidade e para a comunidade.

Organizar uma encenação histórica do final da Idade do Ferro é um empreendimento complicado, não só pelo pouco que se sabe, mas também porque não há modelos preconcebidos. É uma área para a qual, ao contrário das feiras medievais e romanas, não existem grupos, associações ou empresas que tenham atingido um patamar de profissionalização equiparável às recriações de épocas históricas mais recentes. Mas é também por isso que o desafio se torna mais motivador.

A “Citânia Viva” é organizada anualmente na Citânia de Briteiros, desde 2005, pela Casa do Povo de Briteiros, que se associa assim ao mais importante ícone histórico desta zona do Concelho. Conta com o apoio do Município de Guimarães e com o acompanhamento próximo da Sociedade Martins Sarmento, entidade responsável pela Citânia. Está previsto um conjunto diversificado de atividades integradas no evento, que conta com a encenação de Bruno Laborinho e a produção de Daniela Cardoso, que vão desde o “Museu Vivo”, no Solar da Ponte, para os mais novos, mas também para os mais velhos, até ao espetáculo “Aurora”, representado no alto da Citânia, junto à Casa do Conselho. Também neste ano de 2016, o Museu Nacional de Arqueologia se associa a esta iniciativa, promovendo na Citânia de Briteiros, o “3º Encontro Nacional de Contos Indígenas. Contos primevos dos castros e citânias”, que será integrado no programa da “Citânia Viva”. Cerca de cinquenta jovens de todo o país estarão na Citânia e irão partilhar com o público os seus “contos primevos”.

Isto entre várias outras iniciativas, que farão literalmente reviver a velha Citânia. Cá vos aguardamos.

Arqueólogo