Cidade e diversidade
Quinta-feira, Junho 30, 2016

As cidades são locais de diversidade. Foram sempre. E foi do confronto entre pessoas vindas de diferentes proveniências (geográficas, étnicas, sociais) que se foram gerando as condições para as disrupções que causaram as mudanças – muitas das quais damos hoje como adquiridas ou “normais”. Não é por acaso que os principais centros de criação se encontram em grandes cidades. Que não são apenas grandes em tamanho, mas também na dimensão das diferenças que são capazes de acolher.

Vem isto a propósito da inauguração do novo largo de Donães, no centro histórico de Guimarães, que tomou o lugar do antigo edifício onde funcionava a cantina social do lar de Santo António. A autarquia anunciou a obra como uma “devolução” do largo à cidade, como se este espaço tivesse sido usurpado. Não foi. Há séculos que aquele espaço não tinha o uso que agora lhe é dado – se é que alguma vez teve. Historicamente foi um local que envergonhava os locais, como se compreende na leitura de alguns documentos. Que devolução é esta, afinal? Ficou por dizer.

Além disso, aquele lugar foi usado, durante décadas, para acomodar um serviço social, e por isso público, que prestou apoio aos mais pobres de entre os habitantes da área da cidade de que os vimaranenses hoje tanto se orgulham. O meu problema com a intervenção que foi inaugurada no último 24 de Junho nem é tanto o projecto infeliz – a praça criada é um sítio onde não se está, não se brinca e que está cheia de obstáculos que tornaram complicada a sua utilização para realizações de alguma escala – mas mais com a opção política e a dimensão simbólica do que este implicou.

Para criar um novo largo no centro histórico, a autarquia expulsou o equipamento social do centro histórico onde acolhiam diariamente alguns dos mais vulneráveis entre a comunidade vimaranense. Muito provavelmente, não estaria a escrever este texto se a alternativa encontrada para a cantina social tivesse sido encontrada num local intra-muros. Mas o facto é que o equipamento foi empurrado para a periferia do centro histórico. E isso tem uma carga política que não deixa de me causar incómodo.

Pior ainda: o local escolhido está entalado entre o espaço da nova feira semanal e o muro decrépito do convento de Santa Rosa do Lima, numa espécie de gaveto a que falta dignidade. O acesso é feito por um caminho inusitado a que nem o arranjo que está a ser ultimado retirará a condição secundária e pouco importante. Ora, as opções políticas (como as arquitectónicas e urbanísticas, de resto) têm também uma dimensão simbólica e a leitura simbólica do que foi feita é só uma: Guimarães não quer os pobres no centro histórico.

Esconder os mais socialmente frágeis contra um muro é uma ideia que de tão atroz e indigna, não devia ter passado pela cabeça de alguém. Esconder os pobres numa zona em que não passam turistas talvez sirva para continuar a alimentar a ideia de cidade extraordinária, higienizada conformada, normalizada. Pode ajudar a tornar o centro histórico um bom sítio para receber visitas e acolher festas. Mas não o torna um sítio onde se vive. Eu, que prefiro viver numa cidade onde cabem prostitutas e delinquentes tanto quanto músicos e artistas plásticos, não me reconheço definitivamente nesta ideia de Guimarães.

Jornalista