Cidade de brincar
Quinta-feira, Julho 28, 2016

Não era este nitidamente o tema central da minha última crónica, mas a dada altura fiz uma referência, de passagem, ao projecto do novo largo de Donães. Dizia entre outras coisas, que aquele era um local onde não se brincava. Na base desse comentário estava uma inquietação que agora aprofundo. Em Guimarães não se brinca. Não há lugar para isso. Se percorrermos a cidade e as vilas com o olhar certo, repararemos que não são muitos os locais onde as crianças possam fazê-lo tranquilamente e em segurança nos centros. Os poucos parques infantis existentes encontram-se na periferia.

Bem sei que é, para a esmagadora maioria dos adultos, difícil colocar-se no lugar de uma criança e tentar imaginar como é o mundo pelos olhos delas. Mas vale certamente a pena parar para reparar neste problema que enuncio. Façamos um exercício: uma caminhada pelas ruas do centro de Guimarães. Procuremos um lugar onde as crianças possam passar uma hora a brincar sem problemas. Há lugares agradáveis, por certo, como a alameda de S. Dâmaso ou o jardim do Centro Cultural Vila Flor, mas há realmente um local apropriado para brincar?

Existem, de facto. Mas estão relativamente longe do centro da cidade. Correndo o risco de continuar a insistir na mesma tónica que tenho sublinhado noutros temas, mas mais uma vez se percebe um corte entre o centro extraordinário e os locais onde está a vida real da cidade. E onde estão os parques infantis? No parque de lazer junto ao estádio Afonso Henriques (e mesmo assim vedado por uma cerca metálica com um impacto visual algo perturbador) ou no parque da cidade. Porque não no centro?

Não é preciso ir muito longe para encontrar bons exemplos. Basta cruzar a fronteira. Em Espanha, qualquer cidade, das grandes metrópoles a cidades bem mais pequenas do que Guimarães, encontram-se parques infantis e espaços especificamente destinados às brincadeiras das crianças bem no centro das zonas urbanas. Bilbau – cidade pela qual tenho uma admiração crescente – não é excepção e tem aquele que é um dos meus exemplos favoritos deste lugar central que é dado às crianças. O Arenatz, um dos símbolos da cidade basca, espaço de encontro por excelência, a dois passos do centro histórico da cidade, é de tal forma importante para os bibaínos que tem o seu nome assinalado em letras de grandes dimensões viradas para o rio. Essas letras são elas próprias objectos onde se pode brincar, com apoios para serem escaladas e um piso que garante segurança em eventual queda. O que mostra que pensar numa solução destes no centro de uma grande cidade não é descabido e é possível. E desejável.

No início do ano, a Unicef aceitou a candidatura de Guimarães ao programa Cidade Amiga das Crianças. Segundo a informação oficial, pretende incentivar a “participação efectiva das crianças na vida em sociedade”. É evidentemente uma iniciativa meritória e que, sendo bem concretizada – como costuma ser apanágio vimaranense em iniciativas como esta – pode ter efeitos realmente positivos na relação das crianças com a política e a cidade e vice-versa. Mas talvez não fosse má ideia que, antes de colocar as crianças a pensar em como participar na vida democrática, começássemos por pensar em como podem elas ter um direito básico no coração do sítio que habitam: brincar.

Jornalista