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Chegará o dia das surpresas
Sexta-feira, Fevereiro 3, 2012

Leio nos jornais e oiço nas estações de televisão: o acordo da concertação social não contém um único benefício para os trabalhadores. No DN digital do dia 17/1, o jornalista é mais contundente: menos segurança no trabalho, menos protecção no desemprego, menos dias de férias.

A questão que se coloca é como explicar que uma central sindical aceite assinar um acordo em que aqueles que representa, os trabalhadores, ficam a perder no negócio. Como disse o anterior secretário-geral dessa mesma central, este pode vir a ser o princípio do seu fim, quando os conflitos esperados estourarem nas empresas deixando os trabalhadores confrontados com a dureza do acordado.

Já li e já ouvi várias justificações. Que vão da sua origem histórica como criação do PS e do PSD, logo achacada a acertar as reivindicações laborais pelo diapasão daqueles partidos, até à vocação para o martírio em nome de um futuro risonho que nem deus sabe quando acontecerá.

Confesso que nenhuma das explicações colhe o meu apoio. Para mim, o que fez com que a UGT deixasse cair a sua auto-declarada “firmeza” contra tudo o que empobreça mais os trabalhadores, foi, é, a sua convicção que o momento histórico que estamos a viver exige dela que deite água na fervura, protelando o mais que puder o inevitável – a agudização da consciência dos sacrificados.

Também a UGT foi apanhada pelo mito da “emergência nacional”, papão que povoa o discurso oficial e devido ao qual tudo e todos devem aceitar submeter-se sem reagir, sem sequer ousar questionar. Num texto notável pela síntese e pela profundidade, alguém escreveu que a Gestapo, a polícia política do nazismo, esforçava-se para que as pessoas falassem, prendendo-as e torturando-as. A “emergência nacional” pede que os portugueses sofram e calem.

O acordo da concertação social soma injustiça às injustiças, não resolve nenhum dos problemas graves que atormentam a economia e a sociedade, não resolve nenhum dos problemas que roubam o sono às pequenas e médias empresas, que são, como é sabido mas não é considerado, a imensa maioria das empresas portuguesas. Curioso, ou nem por isso, foi ouvir alguns empresários distanciarem-se dele, indicando que o caminho tem de ser outro, o do aumento do poder de compra dos salários que nos leve ao crescimento económico e à criação de emprego. Já antes se ouviram vozes patronais contra o aumento do horário de trabalho sem remuneração, contra a violência de desequilibrar as relações de trabalho na empresa a favor do patronato, permitindo que este faça justiça em causa própria.

Se dúvidas houvessem que a política do governo PSD/CDS aposta em roubar aos pobres para dar aos ricos, este “acordo” desfazia as dúvidas. O que o PCP e outros têm denunciado sistemática e regularmente como medidas lesivas dos mais fracos em favor dos mais fortes, está confirmado por dois relatórios estrangeiros, um da OCDE outro da Comissão Europeia. Pelo primeiro, Portugal é o campeão europeu das desigualdades sociais. Pelo segundo, cai a mentira da justa repartição dos sacrifícios, cai a mentira dos sacrifícios para todos, porque prova que quem mais sofre com a austeridade são os 20% portugueses mais pobres, aos quais é exigido um esforço em dobro do que é exigido aos 20% mais ricos. Dúvidas? Veja-se, por muitos mais, o caso Catroga.

Esses relatórios desmascaram as mentiras oficiais arduamente montadas pelos sucessivos governantes ao longo de 30 anos, do PS ao PSD e CDS, e tanto basta para que não sejam tratados, discutidos, analisados com pormenor e insistência pelos comentadores e sabujos colocados nas televisões, nas rádios e nos jornais.

De há 30 anos a esta parte mudam as moscas fica a bosta.

Mas o dia das surpresas vai chegar, como chegou na madrugada de 25 de Abril de 1974.