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Cérebro em vez de músculo
Quinta-feira, Março 10, 2016

Esta era a crónica que tinha planeado escrever há um mês, mas que, pela pertinência do tema anterior, acabou por ficar em “stand by”. Antes de me dicar ao assunto central, permitam-me, porém, fazer um “rewind” para contar uma história que julgo ser bem elucidativa.

Estava a fazer uma mudança de casa com um familiar, há umas semanas, e o carro que usávamos nessa tarefa ficou estacionado num local frequentemente utilizado por vários estabelecimentos comerciais da mesma zona da cidade para fazer cargas e descargas. Com o à-vontade de quem faz um gesto tantas vezes repetido, subimos e descemos as escadas, carregando uma peça de mobiliário. De regresso à viatura, poucos minutos depois, já um agente da Polícia Municipal preparava uma multa por estacionamento indevido. Aos primeiros argumentos, veio a resposta seca: “Já está!”.

Na mesma zona havia, naquela hora, mais de uma dezena de carros mal estacionados: uso indevido de uma zona de cargas e descargas, estacionamento em cima de uma linha amarela e na faixa destinada aos transportes públicos. A nenhuma dessas viaturas o sagaz agente da Polícia Municipal passou qualquer multa, respondendo, quando questionado sobre o facto de estar a adoptar aquela postura de “dois pesos e duas medidas”, que era “ele quem decidia!”. Fiquei esclarecido.

Não importa discorrer sobre a razão que continue a acreditar me assistia naquela situação. Isso não cabe nas páginas de um jornal. Conto esta história porque é bem o exemplo daquele que é o comportamento casuístico, autoritário, por vezes até ofensivo dos agentes da Polícia Municipal no contacto com os cidadãos. Não é preciso fazer um grande esforço para encontrarmos, um pouco por toda a cidade, exemplos vários de verdadeiro estacionamento abusivo. Não raras vezes, esses comportamentos acontecem na presença de agentes da força local, e que, ainda assim, nada fazem. Portanto, é uma espécie de “roleta russa” cometer uma infracção de estacionamento: dependerá do agente que assista ou da sua disposição naquela hora.

Há situações destas seriam facilmente ultrapassáveis com bom senso e com uma atitude pedagógica por parte dos agentes da Polícia Municipal, mas a prática generalizada a que tenho assistido é a da resposta autoritária. Portugal tem um problema de excesso de músculo nas forças de segurança – será preciso lembrar algumas entradas de Tropa de Elite em bairros sociais ou as cargas inexplicáveis em recintos desportivos, por exemplo?. O que é incompreensível é que estes velhos tiques autoritários não sejam erradicados das forças municipais que, pela sua dimensão e organização, têm que ter um outro comportamento.

Faltará formação, pedagogia, orientação política para que, em lugar de tratar os cidadãos com a arrogância e a superioridade que uma farda parece conceder, se trate de regular, de forma sensata e eficaz, os usos do espaço público. É bom lembrar que estes agentes são a primeira cara do Município no contacto com os habitantes locais ou os visitantes. Se o primeiro contacto com um representante de uma instituição é agressivo, como é o caso, não se pode esperar, da outra parte, uma resposta compreensiva. Há um vínculo de confiança que se perde. E uma cidade como Guimarães não pode dar prestar-se a isso. Falta bom senso. Cérebro em vez de músculo.

Jornalista do Público