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Castros que voltam a ser “invadidos”
Quinta-feira, Outubro 20, 2016

A proliferação vegetal de espécies exóticas conhecidas como “invasoras” tem sido alvo de diferentes estudos e tema de várias publicações acerca da gestão florestal do território. Além da espécie arbórea mais conhecida, o eucalipto, cuja proliferação tem sido amplamente discutida no que respeita ao grave problema dos incêndios florestais, também outras espécies invasoras têm sido identificadas, como sejam as mimosas (Acacea dealbata) e as austrálias (Acacia melanoxylon). São as primeiras conhecidas pela sua vistosa flor amarela, e as segundas por uma característica floração branco creme. A relevância económica do eucalipto tem constituído um factor de peso na discussão sobre as políticas florestais, variando as opiniões que pendem entre a sua erradicação e as tentativas de integração controlada da espécie no nosso ecossistema. Já as mimosas e as austrálias, plantas ornamentais, insignificantes em termos económicos, são facilmente reconhecidas como uma praga por qualquer proprietário que tenha a infelicidade de as ver surgir no seu terreno. São plantas com um comportamento particularmente agressivo, substituindo rapidamente a vegetação nativa, criando fortes raízes e “bancos de sementes”, secando o solo e servindo-se do fogo para a sua própria proliferação, sendo por isso conhecidas como pirófitas.

Mas além das conhecidas consequências da proliferação destas espécies, que vão assim reduzindo a biodiversidade do nosso território, a mimosa e a austrália constituem uma ameaça noutro sentido. São plantas que proliferam muito facilmente em terrenos que não tenham uma utilização florestal ou agrícola regular. Ou seja, onde antes cresciam naturalmente carvalhos, pinheiros, ou mesmo matagal nativo (tojo, giesta, fetos…), prolifera facilmente o eucalipto, e ainda mais facilmente a mimosa e a austrália, nos terrenos onde, desgraçadamente, cresceu a primeira planta, através de uma inocente semente trazida pelo vento.

Os sítios arqueológicos, sobretudo aqueles que são legalmente protegidos (ou seja, classificados) localizam-se em terrenos que não têm, nem devem ter, uma utilização florestal regular. Ou seja, a manutenção da vegetação nestes sítios deve ser feita apenas como forma de limpeza, de controlo do crescimento, não tendo portanto um retorno económico. Quando a vegetação que prolifera nestes sítios é maioritariamente mimosa e austrália, torna-se incomportável garantir uma desmatação regular, porque falamos de plantas que, uma vez cortadas, voltam a crescer em força ao fim de algumas semanas. Se há sítios onde a vegetação é controlada naturalmente pela presença de animais como ovelhas ou cabras, essa não é seguramente uma solução para as zonas povoadas com mimosa e austrália, que, ao que parece, são intragáveis para os nossos ovicaprinos.

Além das consequências de carácter biológico, o crescimento destas plantas em sítios arqueológicos é particularmente nefasto, sobretudo ao fim de alguns anos. Se um coberto vegetal denso pode por vezes actuar como agente dissuasor de destruições por mão humana em monumentos com estruturas arqueológicas à vista, o crescimento destas espécies, a médio e longo prazo, destrói literalmente as estruturas, cujos elementos são deslocados pelo crescimento das raízes. Esta proliferação constitui, no presente, uma das mais graves ameaças à preservação do Castro de Sabroso, em S. Lourenço de Sande. Também na Citânia de Briteiros se verificam duas “frentes de mimosa”, que embora identificadas e delimitadas, e crescendo fora da área escavada, ameaçam perigosamente os terrenos com ruínas à vista.

Do pouco que sabemos desta questão, que aqui fica exposto, conclui-se rapidamente que não conhecemos qualquer solução milagrosa. Ouvimos dizer que as plantas podem ser erradicadas através de substituição por espécies nativas, após corte sistemático das invasoras. Mas também ouvimos dizer que o corte sistemático propicia, tal como o fogo, uma proliferação ainda maior. Fica esta questão para os especialistas… Da nossa parte, resta-nos ir controlando o crescimento, na medida do possível, a bem da conservação dos elementos arqueológicos.

Arqueólogo da Sociedade Martins Sarmento