Camilo Castelo Branco nas Caldas das Taipas
Quinta-feira, Setembro 8, 2016

Durante o século XIX e até ao início da década de 70 da centúria seguinte, Caldas das Taipas foi um ativo centro termal do noroeste de Portugal. As características das suas nascentes termais, as suas óptimas condições naturais e geográficas e a sua oferta hoteleira permitiram uma elevada afluência de aquistas.

Do extenso universo desses aquistas que encontravam nas Taipas, um ambiente acolhedor e de repouso Camilo Castelo Branco (n.1825-f.1890) constitui uma singular presença na história e na memória colectiva desta vila.

A tradição, a história, a obra e o próprio testemunho de Camilo Castelo Branco comprovam-nos, que este romancista permaneceu nas Caldas das Taipas, por inúmeras ocasiões.

No Discurso Preliminar das “Memórias do Cárcere”, Camilo Castelo Branco evoca alguns dos dias em que viveu em Santo António das Taipas, enquanto andava perseguido pela justiça por razões amorosas. Ana Augusta Plácido casada com o conselheiro Manuel Pinheiro Alves, liga-se sentimentalmente a Camilo, chegando em 1859, a fugir definitivamente para os seus braços. Entretanto, o marido de Ana Plácido instaura um processo aos adúlteros, sendo ambos condenados. Devido a esta situação, Camilo e Ana Plácido andaram foragidos desde o mês de maio de 1860, por diversas terras do norte (Samardã, Vila Real, Guimarães, Taipas, etc.) até que, cada um por sua vez é preso: primeiro Ana Plácido, a 6 de junho de 1860 e seguidamente o escritor a 1 de outubro desse mesmo ano. Com efeito, Camilo permanece na Cadeia da Relação do Porto, até 16 de outubro do ano seguinte, data em que foram ambos absolvidos.

Foi nesta época acidentada e difícil da sua vida, sensivelmente na primeira quinzena de junho de 1860, que camilo se refugiou nesta povoação termal. O arqueólogo Francisco Martins Sarmento, seu amigo, foi quem lhe arranjou alojamento numa casa (demolida em 1991) contígua do Grande Hotel Vilas e localizada a escassos metros dos “Banhos Velhos”. Segundo a tradição, Camilo para não ser reconhecido pelos diversos doentes, que frequentavam diariamente este estabelecimento termal, tomava banho nas águas sulfurosas à noite. pode-se estranhar o facto de Martins Sarmento não ter instalado o escritor no seu Solar da Ponte, em Briteiros, situado a poucos quilómetros das Taipas, mas segundo o Dr. Santos Simões “as relações entre ambos não tinham ainda o carácter de intimidade que rapidamente alcançaram e o facto de Camilo andar foragido à justiça obrigou a uma situação de compromisso ”.

Camilo refere igualmente nas suas “Memórias do Cárcere”, que enquanto se encontrava nas Taipas, dava passeios de barco no rio Ave com Martins Sarmento, apreciava as frescas carvalheiras, frequentando por vezes, os bailes da Assembleia, apesar do receio de ser reconhecido.

Após este período passado nas Taipas, o escritor desloca-se para a Quinta do Ermo (cercanias de Fafe) do seu amigo José Cardoso Vieira de Castro. Tempo depois, Camilo é novamente hóspede de Martins Sarmento, mas agora na sua Quinta da Ponte, em Briteiros.

Depois desta temporada que permaneceu nas Taipas, fugido dos agentes judiciais, Camilo não deixou de visitar esta povoação. Na sua correspondência travada com José Vieira de Castro, entre 1870-1872, Camilo refere em muitas dessas cartas que frequentava as Taipas juntamente com Ana Plácido em busca de alívio dos sofrimentos que padecia. Numa dessas cartas, o escritor afirma que consultou três médicos para tentarem diagnosticar os males que antecederam a sua cegueira, que o conduziria ao suicídio em 1890: “Antes de ontem reuni aqui três médicos. Não sei o que pensam de mim. O de Braga chama gastralgia à moléstia. O de Guimarães também. E o das Taipas, que cura há 60 anos, ainda não sabe o que é. Eu sei, e louvo a delicadeza de todos”. Igualmente na sua correspondência travada com Martins Sarmento encontrámos cartas, nas quais nos apercebemos claramente que na década de 80, Camilo era ainda um assíduo visitante desta estância. A título de exemplo, podemos mencionar o seguinte extracto datado de 23 de maio de 1881, escrito por Martins Sarmento e dirigido a Camilo: “Eu conto ir para Briteiros no dia 8 de Junho. Se for para as Taipas veremos se é capaz de ir ver as minhas velharias”.

Historiador