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Caldelas romana como ‘vicus’ termal
Quinta-feira, Setembro 10, 2015

Aglomerado urbano sem uma “fundação” oficial e, pelo menos tanto quanto sabemos, sem um plano de urbanização, que era característico das cidades mais importantes, o vicus romano que deu origem à atual vila das Taipas pode ter tido origem em duas circunstâncias determinantes: a passagem da via romana, como já referimos, e a existência de águas termais.

Os funcionários e agentes do poder Romano não tinham necessariamente uma particular inclinação para procurar recursos. Crê-se hoje que o acesso aos recursos naturais, que variavam entre áreas de riqueza mineira, zonas de boa aptidão agrícola ou pontos de afluência de águas salutíferas, corresponde em grande parte às informações preexistentes, proporcionadas pelas populações pré-romanas da Idade do Ferro, que fariam já uso destes recursos e que, não esqueçamos, continuaram a habitar este território ao longo da época romana.

É possível que a existência desta fonte de águas sulfurosas, localizada na área dos atuais Banhos Velhos, tenha sido a principal razão do estabelecimento deste aglomerado populacional nas Taipas, algures no século I da nossa Era, tendo sido depois impulsionado pela traçado da via romana. Ainda que todas as cidades romanas tivessem termas, que tinham uma função social determinante naqueles recuados tempos, a existência de águas com naturais propriedades terapêuticas, cujas indicações seriam então largamente especuladas, eram aproveitadas. Dar-se-ia então uma ordem inversa na fixação de novos aglomerados: em vez de uma cidade crescente, na qual se constroem umas termas como um equipamento social, temos um local onde se constroem umas termas, que vão dando origem a uma cidade. Este aglomerado, alimentado por uma crescente afluência de utilizadores e de novos habitantes, que aqui se foram fixando com serviços complementares e atividades comerciais, terão dado origem ao tal vicus termal e viário, que era Caldelas romana.

Exposta a nossa teoria, amplamente conjetural, que vestígios temos hoje das termas romanas de Caldelas? A recente intervenção de reabilitação dos Banhos Velhos propiciou trabalhos arqueológicos, coordenados por Ricardo Erasun, que confirmaram, em parte, o registo das estruturas levantadas por Pereira Caldas no século XIX. Este registo, publicado em 1854, continua a ser o levantamento mais fidedigno do conjunto das ruínas visíveis no século XIX, quando a construção das estruturas que deram origem ao moderno complexo termal colocou à vista várias construções de época romana.

Ainda que Pereira Caldas tenha comparado uma das estruturas a uma piscina romana das termas de Aix-les-Bains, no interior de França, e de se conhecerem vestígios do poço de captação e de uma piscina de 20 metros quadrados, detetados na recente escavação, permanece ainda por confirmar a conservação de uma grande parte das estruturas desenhadas no século XIX. O monumento [das termas romanas de Caldelas] carece de uma intervenção arqueológica mais ampla que permita datar a sua construção e utilização, dificultada pelos revolvimentos do século XIX, bem como estudar a inserção urbana do que seria um grande complexo, quiçá um dos mais interessantes monumentos romanos do Entre-Douro-e-Minho.