Caldelas, Vila Termal Romana, Capital das Cutelarias30 anos depois…
Quarta-feira, Agosto 11, 2010

Faz 30 anos que abandonei a cidade invicta para vir viver no coração do Verde Minho, uma zona de gentes complexas (e ponham complexidade nisso!), a que chamam de duas caras, referindo uma suposta duplicidade das gentes de Guimarães. Contudo, diz a história que a cara do umbigo da estátua do guerreiro existente na antiga Biblioteca Municipal se refere a um facto verídico. Pelos vistos, em 1415, quando da Conquista de Ceuta, D. Afonso (filho de D. João I) comandava as tropas recrutadas em Guimarães e Barcelos, que ficaram com duas frentes ou “caras” de combate. Os Vimaranenses cumpriram a sua missão e ainda tiveram de tomar conta da “cara” de combate dos soldados de Barcelos. Será esta a explicação? Dou o benefício da dúvida, se bem que, a viver há tantos anos nesta terra, a outra interpretação, a maléfica, não é totalmente descabida. Não, infelizmente não estou a falar por falar, que não é coisa de que goste ao contrário do que é costume por estas bandas, que é ainda uma coisa que me incomoda, porque, embora já tenha afiado as garras e já não seja muito fácil de levar de pandeireta, continuo a ser muito crédula e presa acessível para quem gosta desses jogos sujos de duplicidade enganosa.

A propósito das descobertas de alguns vestígios romanos na vila, logo as opiniões se dividiram sobre Caldas das Taipas, capital das Cutelarias ou Caldas das Taipas, Vila Romana. Não conheço terra como esta em que as coisas mudam tão rapidamente e as facções surgem num piscar de olhos, defendendo posições extremas e contra- atacando-se como se disso dependesse a existência da vila que, ignorando as questiúnculas que os naturais vão inventando (até porque já há muita gente que nada tem a ver com a terra e que se vai mantendo como espectadora) , vai existindo e marcando a sua posição no mapa e no concelho, quantas vezes de costas voltadas para o mundo (parece!).

Aliás, este é um problema que já vem de tempos idos, pois os Taipenses sempre se identificaram mais com Braga do que com Guimarães e havia, ao que consta, umas perseguições que se faziam à conta do futebol até ao rio Ave que marcava a fronteira intransponível ou havia molho. Seja de que maneira for, sempre o “diz-se diz-se” fez parte do quotidiano destas gentes que gostam de guerrilhas e as inventam, quando elas não existem. Quem sabe terá ficado tal gosto do tempo dos celtas, quando habitavam a citânia e o castro e tinham de se defender ou talvez dos que vieram a seguir, os tais romanos que aqui deixaram tantos vestígios, ou talvez desse povo lusitano que somos nós todos e que nos habituamos a conquistar novos mundos e continuamos a querer conquistar ninguém sabe muito bem o quê (o trabalho é que não é, certamente)! O que sei é que nunca vi tanta gente a dizer hoje uma coisa e amanhã outra ou a dizer amém com este e logo a seguir com aquele.

Faz trinta anos que para cá me mudei e, tanto tempo depois, ainda não me habituei a este fazer e desfazer com que os grupos se mimoseiam uns aos outros. Porque tenho uma visão diferente das coisas e sou natural do Porto, cidade conhecida pelos epítetos “Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta”, a mim não me repugnaria a designação de “Caldelas, Vila Termal Romana, Capital das Cutelarias”.

Porquê a guerra quando a colaboração e o dar as mãos levam ao mesmo fim – tornar a vila reconhecida nacional e internacionalmente? Quando é que os Taipenses aprendem a aplicar o provérbio que ensinamos aos meninos desde que entram para o pré-escolar “A União faz a força”?

Assim, continuo a remar contra a maré, porque já não mudo, e vou resmungando contra este existir Minhoto com que não me identifico, eu que tenho costela transmontana e sou do Douro. De nada me vale… mas eu sou eu, um prolongamento das minhas raízes…