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Boaventura de Sousa Santos crítico com o caminho que a União Europeia está a seguir
Domingo, Março 22, 2015

Para se mostrar que “somos bons alunos”, até às próximas eleições legislativas só vamos ter boas notícias. Estamos a transformar em êxito uma política de empobrecimento dos portugueses

O Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra esteve presente, a 18 de março, no ciclo de conferências “40 anos de Abril – Pontes para o futuro” e não defraudou os presentes, apesar de na sua intervenção nunca ter falado de justiça, um tema caro nos seus estudos.

Boaventura de Sousa Santos mostrou-se muito crítico com o caminho que a União Europeia está a seguir e em que Portugal se deixou envolver: “Nos últimos quatro anos criou-se a ideia que vivemos acima das nossas possibilidades e entrou-se num período de autoflagelação. A crise quando surge tem que ser explicada, quando continua a própria crise é a própria explicação para tudo o que vai surgindo”. Sousa Santos referiu-se à crise de valores que a sociedade atravessa, “onde o mercado político está à venda e daí a corrupção, que é endémica” e à crise política que se traduz “em partidos políticos muito vulneráveis aos grupos económicos”.

Evidenciando que os mercados dominam os países, recuou para a entrada de Portugal na União Europeia e para o tempo em que se acreditava que Portugal iria caminhar no sentido da convergência, mas que, com a crise, se caminha no sentido da divergência: “A crise portuguesa foi provocada para manter Portugal como país periférico e para nos afastar da média europeia”. Sousa Santos entende que a forma como a Europa tratou a crise grega acabou por agravar a cise nacional.

Já na parte final do debate, Boaventura Sousa Santos apresentou as suas ideias sobre a dívida portuguesa, defendendo que sem uma “reestruturação a nível de prazos, maturidades e juros, não será possível permitir um crescimento económico sustentável de Portugal”.

Sobre a situação que a Grécia vive, o Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra foi afirmando que a UE “não pode ceder à Grécia para que não seja possível que o “Podemos” ganhe as eleições em Espanha”, acrescentando que a “Grécia é a vacina contra o que se poderá passar noutros países”.

A sessão não terminou sem que antes fosse muito duro contra o caminho que o governo está a fazer no sentido da destruição do estado social e de ter procedido a “cortes brutais na educação e na saúde”. Exemplificou com a entrada dos privados nesta última área: “A saúde será um dos setores mais lucrativos a curto prazo devido ao envelhecimento populacional. Neste momento existem seguros mais competitivos do que alguns do estado. Os seguros de saúde privados são amigos dos utentes até dominarem o mercado, quando isso acontecer as pessoas ficarão muito limitadas”.
Caminho a seguir? “Um New Deal para a Europa”, aponta Boaventura de Sousa Santos.