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Bancos e indústria automóvel com apoios direccionados. E a indústria têxtil?
Quinta-feira, Fevereiro 5, 2009

20.000 Milhões de euros para garantir o financiamento dos bancos nacionais no exterior. 4.000 Milhões de euros para reforço do capital da banca nacional. 1.000 Milhões de euros para limpar o balanço do B.P.N. agora nacionalizado. 800 Milhões de euros para evitar a falência do B.P.P.

O governo justifica este gigantesco esforço, a pagar no futuro pelos contribuintes, como a melhor maneira de apoiar as famílias e as pequenas e médias empresas, garantindo-lhes, deste modo, o acesso ao crédito.

O negócio é simples. Criamos as condições necessárias aos bancos para se financiarem no exterior e estes garantem condições de financiamento às famílias e às pequenas e médias empresas.

Mas será que os bancos estão a cumprir a sua parte no negócio?

Os empresários têxteis do Vale do Ave têm tido o apoio dos bancos para garantirem a liquidez necessária ao prosseguimento dos seus negócios nesta conjuntura económica tão desfavorável?

A recessão económica transformou, do dia para a noite, uma indústria de ponta, onde a inovação tecnológica e os altos índices de competitividade sempre estiveram presentes, numa indústria à beira do colapso.

A indústria automóvel vira-se agora, tal como os bancos, para os governos exigindo apoios e ameaçando com o desemprego.

O governo responde com um pacote de apoio à indústria automóvel no valor de 900 Milhões de euros, que inclui, para além de financiamento directo às empresas, incentivos à compra de carros.

Justifica este novo esforço como um instrumento para preservar o emprego na indústria automóvel. E o emprego no Vale do Ave? Quem se preocupa? Não é já o dobro da média Nacional?

Que mais será preciso para o governo preparar um pacote de apoio às pequenas e médias empresas têxteis do vale do Ave? Termos um desemprego triplo da média Nacional?

Eu sei que hoje é politicamente correcto dizer-se que a indústria têxtil não tem competitividade, que é uma indústria falida a curto prazo e que por isso não deve ser apoiada.

Permito-me discordar. Os nossos empresários têxteis sempre concorreram no mundo global, e isso só foi possível dada a extrema competitividade dos seus produtos e a flexibilidade dos seus processos. Admito que a mão-de-obra barata tenha também sido um factor de competitividade.

Mas não é também na mão-de-obra barata que hoje assenta a competitividade da concorrência global?

A reconversão têxtil no Vale do Ave é uma realidade que deve ser apoiada. A qualidade dos nossos produtos têxteis é um activo que não podemos desperdiçar. Deixar morrer uma indústria que acumulou um conhecimento ao longo de décadas e que produz o que de melhor existe no mundo é um desperdício económico incalculável.

O que hoje pode parecer inviável, dadas as características actuais do comércio mundial, baseado numa economia do petróleo abundante e barato, tornando o transporte de mercadorias um factor diminuto no custo do produto final, amanhã será necessariamente viável. A curva de evolução da economia baseada no petróleo é, já hoje, descendente. O petróleo é um recurso finito e as economias estão cansadas dos sucessivos choques petrolíferos.

Não é por acaso, que as politicas propostas pelo novo Presidente dos Estados Unidos da América, para tentar sair da actual recessão económica, assentam em fortes investimentos no sector da energia alternativa ao petróleo.

A médio prazo as vantagens competitivas dos
produtos têxteis chineses poderão ser anuladas por um forte aumento do factor transporte.

No futuro próximo a competitividade pode depender duma aproximação do produto acabado ao consumidor,

Por isso é hora da nossa têxtil resistir, manter e melhorar o nível de qualidade dos produtos, e esperar por melhores condições dos mercados para aceder a um novo ciclo de expansão.

Mas para resistir no actual contexto de recessão mundial tem que ser apoiada.

Se o governo apoia os bancos, se apoia a indústria automóvel, tem que se lhe exigir que apoie a nossa indústria têxtil, até porque o apoio à indústria é, nesta fase, o melhor investimento social no Vale do Ave e por consequência no nosso Concelho.

Sindicatos, Associações Industriais, intelectuais, representantes políticos e mesmo as múltiplas associações representantes da sociedade civil da região têm, hoje, a responsabilidade de construir esta exigência.

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