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A treta dos sacrifícios para todos!
Segunda-feira, Maio 7, 2012

Leio num jornal: “banqueiro Jardim Gonçalves, do BCP, recebe 167 mil euros por mês de reforma”.

Vejo Marcelo Rebelo de Sousa na sua doutrinação dominical: “ se o estado assumir as dívidas dos políticos ao BPN, é um escândalo!”

Gramo com o inqualificável ministro de estado e da juventude e do emprego jovem e muitas mais coisas, Miguel Relvas explicar aos jornalistas porque é que nas grandes empresas públicas o governo não corta os ordenados dos administradores: “não há excepção à regra, mas sim adaptação porque essas empresas estão expostas à concorrência”.

Eu não tinha dúvidas que a lengalenga dos sacrifícios para todos era e é uma mentira consciente para evitar a revolta dos que não escapam às medidas selectivas do governo.

Sei eu, sabe o governo e sabe quem não se deixa enganar. Mas que a manobra manhosa dá resultado percebe-se ao ouvir as nada inocentes perguntas ao homem e à mulher comuns, que respondem na sua maior parte que os sacrifícios tocam a todos, devolvendo como pensamento próprio o que não passa de chavão preparado meticulosamente pela classe dominante.

É a isso que o governo se refere ao dizer que os portugueses compreendem e aceitam a austeridade e os sacrifícios que em nome dela estão a ser impiedosamente impostos. Austeridade que, como a tristeza, não tem fim à vista.

O que aconteceu e o que vai acontecer, não é obra do acaso.

Resulta de escolhas, e quem faz as escolhas não quer ser justo, quer ficar para si e para os da sua condição com a melhor parte.

É por isso que há quem de facto esteja a fazer sacrifícios e quem, como os exemplos acima provam, passe ao lado dos sacrifícios. E até há quem ganhe com os sacrifícios dos outros, à semelhança do coveiro que quer que ninguém morra, mas quer que o seu negócio corra.

Tal como antes do 25 de Abril de 1974 a guerra colonial não era para todos, mas para o povo que nela morria e por ela sofria, também em tempo de austeridade o governo escolhe quem sofre e paga a crise e quem passa entre os pingos sem se molhar.

Mas o povo vai aos poucos percebendo que isso de sacrifícios para todos é conversa fiada para o enganar. Em Portugal e na Europa as revoltas surgem, sob várias formas. A ponto de os oportunistas políticos do costume começarem a mudar de lado, avisando que é preciso seguir o sentido dos ventos da história se não se quer ser varrido pelo tornado que se aproxima. Dizem que é a ruptura democrática, mas convém trabalhar para ela e não dar muitos ouvidos aos cata-ventos.