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A trapalhada no concurso de professores
Terça-feira, Julho 20, 2004

A música é conhecida. Fala da eficiência e da eficácia. Fala da Internet e do maravilhoso mundo dos computadores. Fala de um mundo de máquinas de cálculo infalíveis, incansáveis, fiéis e obedientes. Fala de uma gestão livre da maçada de aturar pessoas, que sentem, que erram e, pior que tudo, que pensam.
A letra integra abundante léxico informático – a língua dos novos mágicos – capaz de colar a qualquer discurso cinzento um rótulo de modernidade. O líder moderno tem que fazer eco das novas tecnologias e da Internet, mesmo que não saiba identificar o símbolo @. Sabe que tem que mandar desenhar e re-desenhar a sua homepage, como antes mandava mudar a placa da entrada. Sabe que importa usar as novas palavras com prefixo e-. Sabe que os informáticos são os feiticeiros que o chefe de hoje não pode dispensar.
O decisor político moderno sabe que tem que fazer mudanças. O problema é que o decisor político moderno raramente sabe alguma coisa daquilo que quer mudar, mas não tem consciência disso. Quando assume um cargo público, sabe que tem que se livrar rapidamente dos que sabem, para os substituir por gente da sua confiança, mesmo que também não saibam nada. Sabe que tem pouco tempo – ou reforma ou é reformado – e que há sempre alguém à espera do seu lugar.
O decisor político moderno desconfia das críticas dos “outros” e é facilmente enganado pelos “seus” – porque estes não se atrevem a apontar-lhe as asneiras. Esquece-se com frequência que todas as soluções que não possam ser explicadas e entendidas com facilidade, por pessoas medianamente inteligentes são, provavelmente, falsas ou inúteis para resolver problemas práticos.
Todas as reformas são boas antes de ser implementadas. Não é avisado deitar abaixo a casa velha antes de ter uma nova. Ora, mesmo sem preenchimentos on-line e consultas por SMS, o antiquado processo de concurso e colocação de professores tinha uma importante virtude – funcionava.
O que irrita na trapalhada em que se transformou o concurso nacional de professores é a estupidez com que se estragou uma boa ideia. Sim, era uma boa ideia, apenas se esqueceram de começar pelo começo.
Os altos responsáveis do Ministério da Educação (ME) quiseram fazer um concurso interno on-line, sem dispor base de dados nacional dos seus funcionários docentes. Quiseram inovar radicalmente no maior concurso público nacional de recrutamento de pessoal, sem ter executado qualquer exercício de teste do novo sistema. Ignoraram que há um corpo de técnicos permanentes da Administração Pública que funciona de forma empenhada independentemente da cor política dos dirigentes que vão e vêm. Teimaram em desvalorizar os inacreditáveis erros que cometeram em Setembro de 2003 e avançaram temerariamente para o atoleiro em que estão metidos em Julho de 2004.
Aos tecnocratas da 5 de Outubro só se pode gabar alguma coerência. Desprezaram com igual fervor as críticas vindas de fora, como os alertas dos “velhos funcionários” colocados na prateleira (que no final acabarão por ser chamados a revolver a “borrada”). Por outro lado, mesmo quando já atolados em asneiras até ao pescoço, continuaram a garantir aos chefes que só faltava acertar pequenos pormenores e que a solução estaria para breve.
A trapalhada no concurso de professores tem raízes profundas na arrogância tecnocrática, insuportavelmente irresponsável e desprovida de qualquer consciência social. O que espanta não é a incompetência, é a leviandade com que um punhado de tecnocratas (também há quem lhes chame boys) e de políticos ingénuos e ávidos de protagonismo se puseram a fazer experiências com a vida de dezenas de milhares de pessoas. O desastre afecta já irremediavelmente muitos milhares de professores e respectivas famílias, sobre os quais reina o embuste, a incerteza e a falta de respeito.
Em Setembro, se o funcionamento das escolas vier a ser comprometido, o desastre poderá estar transformado em catástrofe…
J. Augusto Araújo
16/Julho/2004

P.S. – Entretanto, mudou o titular do Ministério da Educação. Consta que é especialista em economia e telecomunicações. Talvez seja a pessoa indicada para perceber que nem tudo se resume a problemas informáticos. À nova ministra temos que desejar muita sorte e sensatez e que, ao olhar para o que vai encontrar, se lembre do provérbio africano que diz: “Se vires um cágado em cima de uma árvore é porque alguém o pôs lá.”