A sustentabilidade, as cidades e o território
Quinta-feira, Março 3, 2016

Aparentemente de forma irreversível, a palavra “sustentabilidade” entrou no discurso sobre as cidades e o território, sendo muitas vezes apresentada como o novo paradigma de desenvolvimento dessas mesmas cidades e território. É fixada como pressuposto e objectivo, é consensualizada como tema político e societal.

Sendo um sinal manifestamente positivo, importa contudo atender ao real significado da palavra e seus pressupostos de modo a (re)centrar a reflexão sobre a sustentabilidade no seu verdadeiro domínio e significado para o território e evitar resvalar o pensamento, acção e debate para eventuais dogmas ou ideias preconcebidas que, porque desfasadas do foco, resultam em realidades não coincidentes com o desejado e leituras desviadas.

E, desde logo, importa realçar ou relembrar que:
1. A sustentabilidade não deve ser um objectivo, antes é uma obrigação que pode (e deve) ser reinterpretada e elevada a um nível de exigência superior. Viver o presente não onerando negativamente o futuro; Viver o presente condicionando positivamente o futuro no caminho do seu desenvolvimento afiguram-se duas premissas transversais ao tempo societal e territorial;

2. A sustentabilidade não é uma questão exclusivamente ambiental (daquilo a que, correntemente, se designa “verde”), antes o cruzamento e conjugação dos valores económicos, culturais, ambientais e sociais. Será na harmonia entre estes valores que se medirá o grau da (real) sustentabilidade;

3. A sustentabilidade não visa a exclusão, antes a conjugação dos factores na construção de um “mundo melhor”. E rejeita determinadas realidades não pela avaliação per si, antes pela avaliação conjugada dos valores acima mencionados (económicos, culturais, ambientais e sociais).

E, porque tantas vezes, se substitui sustentabilidade por desenvolvimento sustentável, importa também não esquecer que desenvolvimento significa aumentar, crescer, ser melhor…

Daqui resulta a constatação de que intervir no território de forma sustentável significa olhar para o mesmo e, criticamente, analisar e actuar de modo a possibilitar a sua melhoria sem fazer “tábua rasa” ou “restart” do território porque, simplesmente, não é possível (nem desejável) apagar tudo o que foi construído e transformado e começar do zero…

Quando nos fixamos no Vale do Ave, descobrimos um modelo territorial intrínseco à condição humana muito própria da região que não pode ser escamoteado ou eliminado simplesmente porque gerou uma rede viária muito extensa ou uma ocupação territorial predadora de solo.

Por muitos erros cometido, o território não se apaga ou reformata integralmente. Ajusta-se e melhora-se, corrige-se de forma contínua, ajudando-o a atingir patamares de sustentabilidade cada vez mais elevados.

Porque convictamente se julga que assim é, não devemos reduzir intervenções significativas no território à dicotomia das ideias preconcebidas (o “asfalto” versus o “verde”, a “estrada” versus a “árvore) mas antes (e debatendo sempre os fundamentos, critérios, prioridades, qualidade da intervenção… porque tal é exercício de cidadania) reflectir sobre o âmbito e alcance dessas mesmas intervenções na resposta às necessidades actuais e futuras da população, no impacto actual e futuro na qualidade de vida de todos aqueles que fazem e constroem a cidade.

Pavimentar uma via estruturante para o quotidiano da população, construir um edifício que equipará de serviços uma comunidade, redesenhar uma praça enquanto espaço público comunitário são acções tão válidas quanto racionalizar a circulação viária, plantar árvores, promover a eficiência energética, velar pelos recursos hídricos, entre tantos outros, se, quer umas e outras signifiquem, de facto, resposta e atenção às pessoas e ao território. Agora e amanhã!

Arquitecto