A solidariedade: sinal de esperança em tempo de crise
Quarta-feira, Agosto 10, 2011

Estamos vocacionados a viver em solidariedade. Quanto mais vivermos em solidariedade mais nos afirmamos como pessoas humanas, como família da mesma “aldeia global”. A solidariedade está a ganhar terreno. E são muitos os jovens que, por exemplo, com o voluntariado, manifestam que a solidariedade é para eles um valor pelo qual vale a pena arriscar a vida. Sinal de alegria e de esperança!

O QUE É A SOLIDARIEDADE?
Os Dicionários definem a solidariedade como uma “relação de fraternidade, de camaradagem, de recíproco auxílio, que existe entre os diversos membros de uma comunidade e faz com que todos se sintam como que uma família”.

Deixando as definições académicas, podemos dizer que a solidariedade é uma exigência da nossa condição de pessoas. Do ponto de vista físico e biológico, só podemos existir em estreita dependência dos outros. Somos seres em relação.

Por volta dos anos cinquenta, surgiu o conceito de personalismo. Esta teoria afirmava que a pessoa por um lado é criatividade, desenvolvimento, autonomia… mas por outro também é comunicação, é relação, é encontro com as outras pessoas e com os outros seres da natureza. Ou seja: estamos vocacionados a viver em solidariedade. Por outras palavras: quanto mais vivermos em solidariedade mais nos afirmamos como pessoas humanas.

Para aprofundarmos esta temática da solidariedade, podemos dar uma olhadela ao que acontece, podemos julgar a realidade e podemos indicar algumas pistas para o nosso agir. Hoje vamos dar uma olhadela ao que acontece.

OLHANDO PARA O QUE ACONTECE
Podemos ver que, actualmente, a solidariedade acontece.

Desfolhando alguns jornais e revistas, mais de carácter religioso e missionário, podemos ver como há jovens que, com espírito de solidariedade e caridade cristã, renunciam, por exemplo, a umas férias superficiais e optam por dedicar o seu tempo livre ao serviço dos mais pobres e humildes. São os voluntários que trabalham em bairros de lata a cuidar das crianças, que sujam as mãos a limpar habitações, que cuidam de idosos… São os jovens voluntários.

Existem várias Congregações Religiosas e Missionárias, assim como Instituições de Bem-Fazer, de Solidariedade Social, de Acção Sócio-Caritativa, ligadas à Igreja Católica (caso das Misericórdias e Caritas…), que têm vindo a ver aumentar o número e a qualidade de jovens que dedicam as suas férias para causas de voluntariado social, dentro e fora de Portugal. Dá-nos uma grande alegria e muita esperança ver como o voluntariado juvenil está a crescer cada vez mais entre nós, entre a nossa juventude.

Existem algumas Instituições, como o Banco Alimentar, Cruz Vermelha, Grandes Superfícies Comerciais…, que têm vindo a promover, a patrocinar e a realizar acções concretas de crescente solidariedade por parte do povo português em geral. Tal como acontecerá em Comunidades de outras Religiões, nas Paróquias e/ou Comunidades Cristãs, nas Missas Dominicais, é frequente encontrarmos Instituições Particulares de Solidariedade Social, sem fins lucrativos, à procura de “migalhas” preciosas para conseguirem fazer face às dificuldades e necessidades concretas, a fim de poderem ajudar pessoas na sua recuperação de dependências (da droga, do álcool…), de violência, de violação sexual… É outro motivo de grande alegria e de muita esperança vermos que, não obstante a crise que afecta tudo e todos, aumenta o número de pessoas generosas, sensíveis e de coração aberto para os problemas económicos e sociais de outras pessoas (também elas) com dificuldades.

Quando há alguma calamidade como, por exemplo, um tremor de terra, inundações e outras calamidades da natureza que fazem numerosas vítimas, surge um sentimento de solidariedade. As pessoas unem-se para juntar bens essenciais e dinheiro em benefício das vítimas. O mesmo acontece quando há calamidades causadas pelo homem, como são as guerras. E vemos como a solidariedade faz com que cheguem às vítimas das guerras os auxílios de que necessitam.

A história de cada dia, que se escreve nos jornais, está cheia de gestos de solidariedade. O que acontece é que a Comunicação Social prefere vender apenas o que é sensacional, dramático, irracional. O bem não é notícia, vende-se mal: o que o público quer é escândalos, traições, ódios, crimes.

Também hoje cresce a consciência de que o nosso Planeta está dividido em dois blocos: o Norte e o Sul. O Norte é formado pelas nações ricas e o Sul pelos povos do Terceiro Mundo subdesenvolvido. E cresce cada dia um movimento de solidariedade em favor desses povos, fazendo algo para os ajudar a passarem de situações menos humanas a situações mais humanas.

Embora haja muita solidariedade entre nós, não podemos ignorar que também existe a não solidariedade.

Um dia, estava numa fila à espera de ser atendido numa repartição pública, quando, sem querer, ouvi a conversa de duas pessoas que estavam atrás de mim. Uma delas contava à outra como tinha feito um gesto de solidariedade, ajudando um vizinho numa situação difícil. O outro respondeu mais ou menos assim: “O mais importante é preocupares-te com a tua vida. Os outros que se arranjem!”.

Esta é a mentalidade de não solidariedade que respiramos, por vezes, no nosso ambiente. Embora a solidariedade seja uma exigência social natural, há quem não tem consciência desta realidade nem tira daí as devidas consequências.

Quando escuto os discursos dos nossos políticos, sobretudo por ocasião de campanhas eleitorais, costumo estar atento às vezes em que utilizam as palavras “solidariedade” e “justiça social”. Gosto de as ouvir dos seus lábios, em discursos mais ou menos inflamados, porque estas palavras são para mim a tradução, hoje, da grande exigência evangélica, a do amor de caridade. Mas, infelizmente, tantas vezes estas palavras não se traduzem em leis que as concretizem para bem dos cidadãos, nomeadamente dos mais desfavorecidos e/ou “sem voz”: os desempregados (que têm vontade de trabalhar, não dos malandros, ociosos e oportunistas!), os trabalhadores a contracto e a recibos verdes, os aposentados com reformas ridículas, os idosos, os estudantes universitários, os casais jovens…

Entre as nações ainda há muito para fazer a fim de que aconteça solidariedade. Falta, por exemplo, que os povos ricos perdoem aos povos pobres as grandes dívidas, pois esse dinheiro, em muitos casos, foi gasto não em benefício das populações, mas para engordar as contas dos ditadores. Sem esta solidariedade, nunca mais terão condições de sair da situação de miséria imerecida.

Apesar de vermos que há trigo e joio misturados, temos consciência de que, actualmente, há um sentimento de que a solidariedade é mesmo um valor que deve inspirar a vida e a acção de todas as pessoas, seja a dos simples cidadãos, seja a dos que regem os destinos dos povos.

O nosso planeta tornou-se numa “aldeia global”, na qual todos se sentem tristes quando alguém sofre, e se sentem felizes quando em qualquer parte da terra acontece festa. A esta consciência de que somos uma comunidade universal damos o nome de “socialização”.

Por conseguinte, vendo a realidade, podemos constatar que a solidariedade vai ganhando terreno. E são muitos os jovens que, por exemplo, com o voluntariado, manifestam que a solidariedade é para eles um valor pelo qual vale a pena arriscar a vida. Bem-hajam!