As obras da nossa desgraça
Sexta-feira, Fevereiro 3, 2012

É de todos sabido que quem ganha eleições é quem apresenta obra; obra no sentido mais corrente da construção civil: estradas, pontes, viadutos, túneis, rotundas, escolas, passeios, mercados, chafarizes, parques de estacionamento, praças, casas disto e daquilo – da cultura, da música, do bailado, das artes.

É este o conceito de obra que ganha eleições. Há outros tipos de obra que não ganha eleições que o trabalho abnegado e dedicado.

O responsável por elas até pode tê-las construído pelo dobro do preço corrente; ter desbaratado os dinheiros públicos. Mas fez obra. Útil ou inútil. Bonita ou feia. Grande ou pequena. É obra. E segue-se a inauguração: com pompa e circunstância para gáudio dos jornais locais que vão ter noticias seguras e fotografias vistosas para agradar ao seu melhor cliente, sem excepção, o município.

E o povo vai embalado neste baloiçar de regabofe gastador e exclama: está bonito!!!

Ao ponto de se concluir que o politico que gasta mais é que é o melhor. Pois, tem de ser o melhor e o que mais distribui: pelos empreiteiros – quase sempre os mesmos; pelos arquitectos – quase sempre os mesmos; pelas associações – as mais queridas; pelas juntas de freguesia – as do mesmo partido pois são essas que garantem a reeleição e a perpetuação.
E as obras foram tantas e tantas que chegou-se ao ponto de as querer conservar e não haver dinheiro para tal; e elas irão cair de podre e de ruína.

Povo! Quando um candidato vos prometer obra, rejeitem tal promessa. Ele vai gastar o vosso dinheiro. E se não pagarem as taxas e os impostos no tempo da lei, eles vão executar-vos, mesmo que não seja devido, e suposto que tenham razão não vão parar de vos executar, de vos atirar para a sarjeta. Sem responsabilidade e sem culpados. É essa a lógica dos poderes públicos.

Ser vítima do próprio veneno que produzimos é o que nos espera. Fizemos auto-estradas e SCUTS para volume de tráfego inventado e a favor de alguns; fizemos centros culturais por todos os lados; fizemos multiusos; reproduzimos escolas; piscinas; campos de futebol e estádios, e agora temos que pagar juros usurários para podermos ir aguentando a situação.

Armámo-nos em ricos para ficarmos mais pobres. Para glória de alguns – os que inscrevem vaidosamente os seus nomes nas placas; e prejuízo de todos.

É este o futuro que construímos e estamos a construir para os nossos filhos: vão ter que trabalhar para pagar a nossa vaidade, a construção de um paraíso na terra que ainda não tínhamos direito pois ainda não tínhamos feito nada por merecê-lo a não ser um 25 de Abril defeituoso que manteve as estruturas e a mentalidade salazarista traduzida numa política das seitas partidárias que não são mais que o reflexo, em democracia, do unanimismo fascista.

Anunciem obras como se as mesmas não tivessem um custo presente e futuro, e teremos a certeza definitiva que iremos empobrecer.

Os vossos filhos não perdoarão.