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As mãos de Pilatos estavam manchadas
Terça-feira, Setembro 8, 2015

Com mais pompa do que circunstância, as estações de televisão anunciaram que não haverá o anunciado debate entre os partidos, por falta de acordo da parte destes.

Com este passe de magia, as televisões quiseram apresentar-se de mãos lavadas, atirando as culpas para todos os partidos com assento parlamentar, o que é uma grande mistificação.

É uma grande mistificação, porque faz passar a ideia que todos os partidos recusaram o debate, quando isso não é verdade. Partidos houve que estavam disponíveis para debater e partidos houve que introduziram pontos de discórdia que quebraram o consenso.

As regras para a cobertura televisiva da campanha eleitoral foram amplamente debatidas, tendo sido alteradas não no sentido de fomentar o pluralismo, a isenção e a imparcialidade da cobertura noticiosa ou informativa, mas no sentido de legalizar uma antiga aspiração da direita partidária, que mais uma vez contou com a cumplicidade dos socialistas, de levar a cabo confrontos político-partidários com base no peso eleitoral alcançado no passado pelos partidos, ou, ainda mais grave, a partir das indicações obtidas nas sondagens, ou, pior ainda, com base no senso comum, no pensar do “homem da rua”.

Nesse processo de formação das novas regras sempre se falou das candidaturas e nunca dos partidos, como recordou o semanário Expresso, exactamente para vincar que os debates seriam liderados por um representante de uma candidatura, assuma ela a forma de um partido ou de uma aliança de partidos ou coligações.

Ao argumentar que o CDS queria participar no debate, o que de facto se estava a dizer é que o debate deixava de ser entre candidaturas e passava a ser entre partidos, o que iria ao arrepio do consenso gerado durante a fase de discussão da lei, o que abona pouco a favor de quem nega o que antes acordara, além de que, do ponto de vista puramente matemático, multiplicava o tempo do governo que, por uma manobra de contorcionismo circense, estaria representado por dois defensores das suas políticas, uma vez que ninguém duvida que o grande tema do debate seria o julgamento da prática política do governo, do que prometeu e do que fez ou não fez.

Ao desistirem do debate, as televisões puseram-se do lado de quem fez a birra. Em linguagem futeboleira dir-se-ia que as televisões beneficiaram o infractor, o que é injusto. Por isso se diz que as televisões fizeram o frete ao governo, demonstrando o quanto estão ao serviço dele.

Há uns anos, a BBC passou por uma situação idêntica: quis promover um debate entre vários partidos ingleses e houve quem o boicotasse, com argumentos ridículos que não colhiam. A BBC não desistiu, não cedeu, o debate fez-se com quem quis debater. Esta deveria ter sido a posição das tvs portugueses, mas não foi.

E não só fizeram o frete como contribuem para que na opinião pública fique a ideia de que todos os partidos têm culpas, branqueando a atitude birrenta do CDS e o taticismo cúmplice do PSD, ao mesmo tempo que ignoraram deliberadamente a disponibilidade do PCP. Esta fretada serve os interesses do governo, serve os interesses do PSD e do CDS, mais interessados em que se fale de cartazes abaixo e acima do que em analisar as consequências económicas, financeiras e sociais dos quatro anos da sua governação a favor dos ricos e contra os pobres. Pensem nisto e julgue-os você, caro leitor. E vote, castigando quem merece e premiando quem sempre esta ao seu lado.

Economista,
escreve crónica de opinião política no jornal Reflexo