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As mãos, os dedos e os anéis
Sábado, Março 14, 2009

A actual situação económico-financeira tornou-se uma instituição cuja dimensão parece ser superior a qualquer sistema e a qualquer ideologia. Se muitos apontam a falência de modelos económicos e de escolas ideológicas, muito poucos arriscam em avançar o que quer que seja acerca do nosso futuro.

Foram divulgados durante a passada semana os resultados dos exercícios contabilísticos da Galp Energia e da EDP, referentes ao ano de 2008. A primeira teve um lucro de 478 milhões de euros, superando as expectativas; a segunda apresentou lucros de 1.092 milhões de euros, também acima das expectativas.

Estes resultados, numa economia consolidada, poderiam ser muito boas notícias. Numa economia refém da actual conjuntura internacional e das deficiências estruturais da economia doméstica, estes resultados são um escândalo, para mais ficando-se a saber que os lucros da Galp resultam, em grande parte, do atraso do ajuste das tarifas de venda final com as do preço descendente do petróleo. Atraso que simplesmente não existiu quando os preços do petróleo subiam.

Quando empresas e famílias encontram diariamente dificuldades enormes na gestão dos seus orçamentos, a ostentação destes resultados só pode ser encarado como uma afronta revoltante. E de nada servem as “golden-shares” que o Estado português detém naquelas duas companhias, que tanto têm sido contestadas pela Comissão Europeia e que deveriam servir ultimamente o interesse público.

São vários os exemplos que vêm confirmar que o dinheiro, que ninguém parece saber onde anda, está de facto em algum lado. Tratando-se de um fluxo que apenas vai trocando de mãos, por mais virtual que o dinheiro seja e partindo do princípio de que ninguém anda a queimar notas, o dinheiro tem que estar em algum sítio.

Segundo os manuais de economia, o produto é função de dois tipos de factores: o capital e o trabalho. Com o tempo foram-se acrescentando outros, como o conhecimento ou mais recentemente o bem-estar, mas assumamos que aqueles dois são factores essenciais.

Sem poder apontar soluções para o que quer que seja, julgo ser impossível sair de qualquer crise económica sem que se dê o devido valor ao factor trabalho. Parece-me óbvio que nenhuma economia funciona se não houver quem colha, quem transforme e quem venda.

Nunca como nos dias de hoje o trabalho foi tão desvalorizado e não há economia que funcione sem que se saiba onde pára o capital e sem que se promova o trabalho da população activa. É nestas áreas que o papel regulador do Estado é fundamental (não confundir com papel controlador).

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