As feiras em Estarreja
Terça-feira, Maio 3, 2005

Estarreja é capital do concelho e cidade há pouco tempo. Fica a poucos quilómetros a norte de Aveiro, que é a capital de distrito. Tem pouco mais de 12000 habitantes e tornou-se tristemente conhecida pela concentração de indústria química, embora tenha outros (bastantes) pontos de interesse. Talvez o mais evidente seja o sistema de esteiros e pequenos cais que fazem parte da ria de Aveiro.

Há dois dias da semana em que se realizam feiras em Estarreja – à Terça-feira e aos Sábados. Essas feiras têm um espaço que, em dimensão, terá um terço do recinto das feiras das Taipas.

Aparentemente, as feiras de Estarreja são feiras como as de outro sítio qualquer: têm gente (bastante gente ao Sábado); têm confusão de trânsito automóvel; e têm, claro, desperdícios, ou seja, lixo.

Há, no entanto, algo que distingue estas feiras em Estarreja: no fim de cada dia o recinto está asseado, apenas pontuado por sacos pretos de lixo encostados aos talhões que se desenham em pedrinha de calcário.

Afinal, as feiras não são todas iguais e se os maus exemplos podem servir de consolo, de modo algum podem servir de inspiração ou de desculpa para o nosso desleixo. A forma encontrada em Estarreja para a limpeza do recinto da feira é com certeza um bom exemplo.

Mas qual é então a estratégia? Nada mais simples: no início do dia um funcionário da Câmara Municipal distribui sacos de lixo por todos os feirantes, convidando-os a neles recolherem todo o lixo durante o dia. Os feirantes colaboram e ao fim do dia, o lixo está concentrado nos sacos, sendo por isso muito mais fácil recolhê-lo.

Os custos desta operação de limpeza são os sacos, os funcionários que os distribuem e finalmente a operação de recolha. Eventualmente, será necessário varrer algum lixo que, sendo em muito menos quantidade, demora menos tempo a limpar. Os benefícios estão simplesmente na poupança do tempo da operação de limpeza (e portanto teoricamente também no valor a pagar pela operação) e na utilidade de ter o espaço limpo durante mais tempo. Isto partindo do princípio de que existe prejuízo em ter uma parte de uma cidade imunda.

Este sistema de limpeza consiste em tomar medidas em antecipação. Será necessário que todos colaborem. Será necessário um esforço dos funcionários em convencer os feirantes a colaborar. Poderão existir esquemas de cativar essa colaboração (por exemplo, uma pequena redução na mensalidade por cada saco de lixo).

A feira das Taipas tem um problema que necessita de resolução. É claramente um problema de gestão e de falta de envolvimento. Existe receio de enfrentar pessoas e situações. Dependendo das circunstâncias esse receio pode ser perfeitamente justificado. Mas se há regras, estas devem servir para contribuir para melhorar e não piorar as organizações. Esse é um pilar básico das sociedades.

A recusa da colaboração e o respeito por essas regras comuns, prejudica automaticamente o ‘interesse comum’. No caso das Taipas há situações de desrespeito perfeitamente identificadas e circunscritas. Ora, quem muitas vezes se queixa de exclusão e racismo, não pode ao mesmo tempo ignorar as regras das sociedades de que se alimentam.