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As canções da nossa terra
Quinta-feira, Agosto 4, 2005

Entrevista com o trio Os Boémios

Já lá vão quase quinze nos desde que começaram. Se no início não pensavam muito no que poderiam conquistar, a exposição radiofónica, televisiva e uma agenda preenchida de concertos, fez saltar o Trio Os Boémios da vila das Taipas para o mundo.

O Trio Os Boémios iniciou a sua carreira em 1991. O princípio foi difícil?
O início dos Boémios foi muito difícil. Não tínhamos meios suficientes. Por exemplo, não tínhamos carro, nem aparelhagem. Foi preciso comprar uma pequena aparelhagem de som a crédito. Para nos deslocarmos, tínhamos que pedir ajuda a amigos. Pedíamos carrinhas emprestadas para deslocar o material e os elementos do grupo. Éramos nós que montávamos e desmontávamos a material. Enfim, éramos nós que fazíamos tudo. Guardo boas memórias dessa altura…

Quer partilhar algumas delas?
Posso dizer-lhe que nesta altura, quando lançamos o primeiro CD em 1994, pedidmos uma carrinha emprestada, para ir fazer um espetáculo em Penafiel. Se não me engano no Cine-Teatro de Penafiel, foi para uma campanha eleitoral. No regresso, a carrinha avariou e tivemos que a empurrar durante quilómetros. Noutra altura, chegamos ao sítio onde íamos tocar e não havia corrente eléctrica. Lá pensaram que nós também levávamos a corrente eléctrica e não era preciso mais nada. Depois lá foi preciso desenrascar a corrente eléctrica numa casa lá ao lado. Esse foi um dos episódios mais engraçados e que nunca mais me esqueci. Há ainda um outro episódio, em tocamos em cima duma espécie de corte de gado e as vacas passaram o concerto a mandar cornadas e a mugir.

Já percorriam muitos sítios nessa altura?
Sim, já íamos a muito lado. A nossa área de abrangência era basicamente o Minho.

Em que é que acreditavam? Já acreditavam que poderiam chegar onde chegaram hoje?
Não, nunca acreditamos muito, nem pensávamos muito nisso. Eu acreditava bastante era nas vozes que tínhamos. Tinha noção que, em termos musicais, não éramos muito ricos. Tínhamos o Adelino a tocar teclas, que fazia uns acordes e pouco mais. Claro que depois fomos evoluindo, conforme as coisas se foram tornando maiores.

Em dez anos, houve uma evolução muito grande na forma de fazer a música popular e ligeira em Portugal. O trio Os Boémios acompanharam essa tendência?
Claro que sim. É o público que nos pede que haja essa evolução. Hoje temos uma banda completa de palco que nos acompanha, temos dançarinos e toda uma equipa técnica embora recorramos ao aluguer do material em algumas situações. Claro que continua a haver pessoas que preferiam ver Os Boémios só com as violas e as vozes… mas não se pode agradar a gregos e a troianos. Agora, claro que sim, é preciso outra estrutura porque as coisas vão evoluindo. Neste momento, n’Os Boémios, é preciso fazer a gestão de 19 pessoas o que é alguma responsabilidade.

A partir de que altura é que verificaram que o grupo se tinha tornado numa coisa realmente séria?
Começamos a ter uma grande exposição a partir do disco que tinha a “Roseira Enxertada”, em 1997. Posso dizer que nessa altura foi como que um renascer d’Os Boémios. Embora, tivesse sido importante tudo o que fizemos antes. Nessa altura, demos conta que o grupo tinha ganho alguma dimensão.

E como é que notavam isso?
Notamos isso porque, nos espectáculos, as pessoas já nos pediam as músicas. O público já conhecia bem as nossas músicas. Essas músicas ainda hoje tocamos nos espectáculos porque o público nos pede. A “Roseira Enxertada”: Chegamos a tocar duas e três vezes; “O Casamento da Luísa”: tínhamos que cantar; tínhamos que cantar os “Parabéns”, “A Mulher Alentejana”… Tínhamos que cantar todas essas músicas. Ainda hoje é assim.

A partir desse êxito todo que tinham atingido, sentiam-se famosos?
Não. Nunca nos sentimos importantes. É das coisas que eu costumo dizer àqueles que estão a começar: “Nunca te sintas importante. Sê sempre humilde.” Temos consciência, no entanto, que nos tornamos conhecidos. Por exemplo, se chegarmos a um sítio qualquer e perguntarmos se conhecem o Presidente da Câmara de Guimarães, ninguém sabe quem é. Mas se se perguntar se conhecem os Trio Os Boémios, já conhecem, porque ouvem e vêem na televisão. Mas temos que ser cuidadosos ao lidar com isso, porque não podemos fazer asneiras…

Asneiras em que sentido?
Qualquer asneira, não se pode fazer. Qualquer deslize somos logo apontados com o dedo, porque as pessoas nos conhecem. As pessoas são um bocado ingratas por vezes… Tão depressa nos põem em cima, como nos deitam abaixo e depois nunca mais nos levantamos. Esse é o preço da fama e é preciso saber geri-la também.

Então, depreende-se que têm conseguido gerir bem a vossa fama.
Com bastante dificuldade, mas é preciso fazer essa gestão. É necessário ter estabilidade e saber exactamente aquilo que se quer. É preciso saber lidar com as pessoas e não fugir delas. Penso que é por isso que somos aceites em qualquer lado que vamos. Tanto fora como dentro da nossa localidade. Dizem que às vezes “santos da casa não fazem milagres”, mas eu não tenho nada que dizer da nossa terra, que sempre nos tem acolhido tão bem. Nas festas de S. Pedro são aos milhares para ver Os Boémios.

Na última entrevista que Os Boémos deram ao Reflexo, há dez anos, falavam da vossa facilidade em escrever músicas. Continuam a escrever músicas em quinze ou vinte minutos, como faziam então?
Claro que isso depende. Há letras que vão sendo escritas e outras que recebem contributos de alguns amigos, depende. Mas para nós o importante é que a música tenha uma mensagem que seja capaz de ser transmitida. Quando estamos no palco cada palavra e cada nota musical passa a ter outra dimensão.

Se nos discos houve altos e baixos, pelo menos em termos de vendas, nos concertos a vossa ascensão foi contínua?
Sim, no início começamos aqui pelas redondezas. Depois passamos a percorrer o país todo. Começamos a ir também ao estrangeiro com mais frequência. Fizemos uma digressão pela França na altura do disco “Um Vira Uma Mulher”, em 1999, embora já lá tivéssemos tocado várias vezes antes. Nessa altura, tocamos em Tolouse, paramos em Paris e depois fomos a Lille e a Tourcoing onde, muitos emigrantes nos vieram ver da Bélgica. Tínhamos já um espectáculo bem montado em termos de qualidade de som e de luz.

A boémia é para vocês, Trio Os Boémios, uma forma de estar na vida?
Nós temos a nossa vida para além d’Os Boémios, por isso a boémia nunca pode ser uma forma de estar na vida. Admito que o nome nos poderá ter prejudicado no início, porque as pessoas conotavam o nome do grupo com as pessoas que viam no palco. Claro que, quando estamos de férias, gostamos de estar com os amigos e com as amigas.

No último disco da banda reparei que houve uma alteração na formação do trio. Qual a razão dessa alteração?
O Lino acompanhou-nos desde o início. Quando é assim, é um bocado desagradável estar a falar disso. O Lino optou por dar um rumo diferente à sua vida.

O que é que o público d’Os Boémios ainda pode esperar?
O nosso objectivo é crescer sempre, é sermos sempre melhores e atingir um melhor grau de perfeição naquilo que fazemos. Estamos a preparar a edição de um DVD que faz um apanhado de vários dos nossos espectáculos e que terá os grandes êxitos d’Os Boémios.

A discografia d’Os Boémios

Antes da primeira edição em CD do Trio Os Boémios, houve diversas gravações que apenas saíram em cassete. O trio iniciou actividades em Janeiro de 1991 e a primeira gravação foi feita em Maio desse ano, cuja edição se encontra esgotada há vários anos. Nesse primeiro registo, nota-se o trabalho de vozes que passariam a caracterizar o Trio Os Boémios. Seguiram-se mais três gravações, todas no mesmo ano.


A primeira edição em CD sairia em 1994 com título “Canções na minha terra”, que teve como grande êxito o tema “A Mulher Alentejana” e “A Senhora Cegonha”.


Em 1995, e por arrasto do bom número de vendas do disco anterior, é editada mais uma gravação: “O Casamento da Luísa” que se revelou também um êxito de vendas. Como estava encontrado o potencial do trio, a editora em que se encontravam promove a sua contratação por uma outra editora com uma estrutura mais forte, capaz de lançar o grupo em grande escala.


Foi dado o salto e já na nova editora, é lançado em 1996 “Saudades dos 20 anos”. A aposta numa nova editora revela-se fracassada. O disco não foi promovido como os elementos do trio desejavam. Era suposto nessa altura uma grande campanha junto das televisões. A falta de promoção do disco acaba por se reflectir no reduzido numero de vendas deste trabalho, relativamente aos anteriores. Os Boémios rescindem o contrato com a editora.


Nos finais de 1996, o grupo começa a trabalhar para uma nova edição discográfica. “O meu amor não mata”, de 1997, disco que continha mais um grande êxito do grupo “Roseira Enxertada”. Este disco tem uma grande influência dos cantares tradicionais do Alentejo. A editora decide apostar no tema título, embora o grupo apostasse no “Roseira Enxertada”. Nota-se outro apuramento musical do grupo, embora o processo de gravação fosse ainda muito rudimentar. Nesta altura, a banda contava com um novo teclista, passando Adelino a tocar viola. A dimensão do grupo aumenta, assim como a sua exposição. Segundo Manuel Leite, a partir desta altura a actividade do grupo começa a ser mais séria e profissional. Até esta altura, este foi o disco d’Os Boémios que mais vendeu.


O disco seguinte sai em 1998. Traz dois títulos na capa, porque “esse foi o disco das duas paixões”, segundo conta Manuel Leite. Eram duas músicas, que eram as mais fortes do disco: “Se Deus Quiser” e “O Canarinho Prisioneiro”. Foi lançado um desafio aos fãs d’Os Boémios, ao nível das rádios nacionais e locais para apurar qual das duas músicas seria a “cabeça de cartaz”. Acabou por ser a segunda a mais pedida. Foi difícil superar o grande sucesso da “Roseira Enxertada”, mas a procura por grandes êxitos continuou, mesmo que, para isso, fosse necessário correr alguns riscos.


“Um Vira Uma Mulher” surge em 1999, que representa uma quebra na habitual continuidade do grupo. Foi um disco gravado com vários músicos em estúdio e que se revelou um êxito de vendas em Espanha, tendo-se o grupo apresentado, por várias vezes, na televisão da Galiza. Em Portugal, não conseguiu atingir os níveis de vendas dos dois discos anteriores, embora tenha sido um disco muito mais cuidado em termos de trabalho vocal, de composição e de qualidade de gravação. O disco saiu antes do tempo, pois os êxitos anteriores ainda estavam muito presentes. A carreira do grupo torna-se cada vez mais internacional.


No fim do contrato com a editora (Ibéria Records), corria o ano de 2001, são lançados dois discos que reúnem os grandes êxitos d’Os Boémios. Esse lançamento surge a partir de um desentendimento do grupo com a editora e é feito sem a autorização d’Os Boémios. No entanto, são os discos d’Os Boémios que mais se vendem.


Nessa mesma altura (2002), o grupo prepara-se para um novo lançamento, já na editora Duplisom, uma subsidiária da editora Espacial. Coincidiu com um período conturbado na vida d’Os Boémios e o disco é gravado por conta do trio, devido aos atritos entre as editoras. Foi um disco menos cuidado em relação aos anteriores, embora com composições do agrado do grupo. Na opinião de Manuel Leite, este disco deveria ter sido feito com mais calma e cuidado.


Em 2004, o grupo lança o último disco até à data: “Cantiga da Saudade”. Altera-se a formação de sempre d’Os Boémios. Lino é substituído por José Amaro que já acompanhava a banda em palco. Na opinião de Manuel Leite, este último disco, representa um novo salto para Os Boémios, embora a sonoridade do grupo se mantenha na sua essência. É o disco mais bem feito d’Os Boémios até hoje. “A Cantiga da Saudade”, encontra-se com a edição esgotada. A característica popular não é tão forte e o grupo opta por se aproximar mais da música ligeira.

Paulo Dumas
paulodumas@reflexodigital.com

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