As campainhas romanas de Urgezes
Quinta-feira, Fevereiro 18, 2016

Seguindo aqui um pequeno, e limitado, périplo pelos vestígios de época romana na cidade de Guimarães e na sua envolvente, não podemos deixar de referir um dos achados romanos mais peculiares de Portugal, ocorrido em 1921, ou pouco antes, na freguesia de Urgezes. Trata-se de um par de campainhas de bronze (tintinabula), recolhidos ao arrancar uma árvore, juntamente com duas ânforas, tudo oferecido ao Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, pelo Dr. Joaquim José de Meira.

Achado ocasional, com um contexto incerto, característico de grande parte dos achados arqueológicos mais expressivos ocorridos na época em questão, estas duas campainhas foram um achado feliz. É que, além do seu extraordinário estado de conservação, trata-se de dois raros exemplares de instrumentos musicais da Antiguidade que se conservam. Ao classificar estas duas peças idênticas como instrumentos musicais, não queremos restringir a sua possível utilização original, que pode ter sido diversa. Campainhas foram usadas quer para a produção de música, propriamente, quer como alfaias litúrgicas, objetos votivos, peças colocadas em sepultamentos, objetos utilizados em cerimónias públicas como inaugurações ou abertura de festividades. Já para não dizer que as campainhas, desde tempos remotos (embora, aparentemente, não para além da época romana) foram utilizadas para funções tão simples como sinalização de animais nos pastos!

De qualquer das formas, o facto de desconhecermos hoje o seu contexto específico de deposição limita bastante a interpretação, quer da utilização destas peças, quer do sítio arqueológico onde elas foram recolhidas, algures no lugar conhecido como Vaca Negra, não longe da Igreja Matriz (“Velha”) de Urgezes. Também junto a esta Igreja recolheu Martins Sarmento fragmentos de tegulae.

Curiosamente, verifica-se um aparente padrão de recolha de vestígios de época romana nas imediações das igrejas paroquias do Concelho, ou na área do núcleo original das paróquias. Assim aconteceu em Creixomil, a que aludimos na nossa anterior publicação, como em Ponte ou em Santa Eufémia de Prazins. Pode tratar-se de um fenómeno ocasional, mas podemos também ver aqui um indício de como a origem das nossas atuais paróquias pode, de facto, remontar às alterações no povoamento que se verificaram na época romana, com a “descida” das povoações aos vales e subsequente formação de granjas e casais, por vezes villae, como já sugeriu Alberto Sampaio. Estará aqui a origem do povoamento do núcleo da cidade-berço?

A reconstituição da paisagem humana de Guimarães, na época romana, vai assim sendo aferida, à falta de trabalhos cientificamente orientados para este tema, a partir de um conjunto de achados dispersos, maioritariamente detetados nos finais do século XIX e na primeira metade do século XX, como no caso destas curiosas peças de Urgezes.

Arqueólogo da Sociedade Martins Sarmento