As Taipas que eu ainda conheci
Terça-feira, Abril 5, 2005

Nesses tempos só existiam duas tendas de tecidos, em peças e retalhos, ainda longe do tempo das confecções – “é sempre a rasgar!”, dizia ao nosso amigo Duque, na expressão do 326, o velho Mansinho dos biscoitos e berlindes regionais das Taipas. Uma era da Ser’Antoninha e do S’Leobiano Duque; a outra de uma senhora lá dos lados da freguesia de Gondomar. Os transportes das fazendas e riscados era feito em carroças puxadas a burro. Havia duas feiras especiais, a de segunda-feira de Páscoa e a das festas do S. Pedro que, nesses tempos, era dia Santo de Guarda. A mocidade aproveitava-as para ir à procura da rapariguinha que lhe caísse no goto. Recordo-me que um dia, eu e o Duque, atiramos uns piropos inofensivos a duas, uma das quais nos rejeitou porque nos considerou uns pobres pelintras – e éramos! – e que para ela, rapaz só com “tarron”! Há tempos encontramo-nos e não a reconheci, transformada em autêntico farrapo! Foi ela que se lembrou de mim e desabafou que a experiência lhe ensinou que o problema não é ter “tarron” mas sim a capacidade de o adquirir… Lições da vida!
As festas e feira de S. Pedro com as arcaicas “rodas de cavalinhos” ainda puxadas à mão, o “Poço da Morte”, a “Vida de Cristo” em movimento, o “mais tabaco, cinco ou dez, paris a arder” e tantos outros divertimentos, a audição das Bandas de Música, a local e outra afamada, de fora – a dos “calhaus” não tinha ali lugar – que arrastavam multidões de fanáticos melómanos apoiantes de uma ou de outra. Era o escape de um povo, marcado pelo trabalho de segunda a sábado, e de manhã à noite porque “semana inglesa ou americana” ou “pontes”, eram um luxo de que a geração que valorizou o escudo e pôs Portugal com as contas em ordem em relação aos seus credores, nem tinha vagar de se lembrar, quanto mais reinvindicar.
Aos domingos, no domínio dos passatempos, para além do passeio de barco no Ave, recorriamos ao S’Joaquim Terrique que por uns tostões nos alugava à hora, meias ou quartos, as bicicletas, preferentemente “de corrida com mudanças” para queimarmos as energias exuberantes da mocidade, bicicletas que eram um sonho de as possuir, irrealizado, de uma geração de tesos mas alegres e felizes…
A parte comercial das Taipas era preenchida por algumas lojas de tecidos e passamanarias: o “Pito”, o “Chitas”, o Quim Rabata e casas de utilidades como o Custodinho, o Percevejo, o Manel Lourenço, o Zé da Preta que, além da secção de tecidos manuais abastecida pelas tecedeiras das freguesias à volta que, com o matraquear dos teares não deixavam ninguém dormir descansado, nela adquiriamos umas cestinhas de ráfia às cores com figos de capa–rota ou então placas de chocolate envoltas em “papel de prata” de várias cores, cobertas de figuras policrómicas que coleccionavamos em cadernos próprios.
No foro da saúde tínhamos o Dr. Alfredo Fernandes que veio lá de Vieira do Minho e que se integrou totalmente no meio a ponto de ser presidente da Câmara de Guimarães. Pelo relato do seu funeral que possuo assinado por C. C. (Cândido Capela?), vê-se que as Taipas não lhe testemunharam a gratidão que lhe era devida. Outros médicos que eu conheci foram os Drs. Miguel Alves, Carvalho Ribeiro e Crespo. Mais tarde o Dr. Augusto Dias que aqui fez a sua carreira e, através dos filhos e nora ajuda a resolver os nossos problemas sanitários. Apesar do vimaranensismo de toda a família não deixam de ser taipenses bairristas e assim é que deve ser! Farmácias, existiam as duas que temos hoje. Nesses tempos recorria-se a medicamentos quase caseiros, à base de plantas medicinais guardadas em frascos típicos e a pílulas manufacturadas em moldes próprios e manipuladas em almofariz, apetrechos que enriquecem hoje estantes e museus. O proprietário da que a minha familia frequentava e cuja existência vinha de tempos imemoriais, era o Sr. Monteiro, homem íntegro que infundia respeitabilidade à sua numerosa clientela e chefe de uma família de referência.
Barbearias existiam diversas onde se enterravam vivos e desenterravam mortos… A que eu frequentava, na transição da infância para a puberdade, era a do Sr. Matias onde hoje o Jorge Duque veste a malta à maneira e que é um sobrinho que muito prezo.
Existia um ou outro atelier de modistas que pagavam na fama de, além do corte próprio da costura, cortarem na vida alheia através da má-língua. Não confirmo nem desminto pois nunca, como é óbvio, frequentei seme-lhantes laboratórios da feminina vaidade… mas que eram um antro de coscuvilhice, não se livravam da fama.
Das figuras típicas, salta-me agora à memória o S’Manézinho Padre – Santo, tratador vigilante dos jardins e legionário assumido que um dia cometeu a proeza de transferir o “vaticano” do Lugar da Lameira, antiga Galiza, para a margem direita do Ave e que criou uma prole que lhe vai continuando o apelido. Boa gente!
E ainda o “Maneta” que apregoava a lotaria da Santa Casa e que, vitoriano apaixonado que era, não saía de Guimarães, enchendo com a sua voz tonitruante o belo Largo do Toural: “Grande Lotaria do Nataaal…!”
E, por falar em vitoriano, existia um fenómeno que creio hoje desaparecido ou, pelo menos, fortemente esbatido: enquanto as Taipas, mais perto de Guimarães torciam em maioria pelo Braga, Sande, mais longe, era em peso, pelo Vitória. Sande levava a melhor, porque a partir dos primeiros anos da década de 30, o Vitória açambarcou os campeonatos distritais, batendo de forma esmagadora o Sporting de Braga que só atingiu o nível nacional quando o Vitória já há anos lá se encontrava. “Vitória, com altivez, já não tem nenhum rival, é ele mais uma vez, o campeão distrital !”, cantavamos nós , a pequenada e os gran-dalhões! Saudosos Campos do Bem-lhe-vai e da Amorosa, cenários de tantas tardes de glória!
O “Caçadores” de cá, esteve muitos anos inactivo, limitando-se aos torneios de tiro aos pombos. Só mais tarde o Zeca Machado, o Ingilha, o Toninho Sarrazinha, o Geada e tantos outros que se me varreram da memória, reactivaram as actividades futebolísticas, a grande doença dos tempos que correm que nos levam dinheiro bem digno de melhor aplicação!…..
Filão inesgotável com tanta coisa para dizer mas deixo a tarefa a quem esteja mais motivado que eu. Sobretudo, que escreva em português vernáculo e não no “pretoguês” com que, por vezes, agridem o nosso simpático “Reflexo”. Se tiverem dificuldade em descobrir assunto, falem com o Manel do Carregal ou com o meu parente Carlos dos seguros, que são fonte inesgotável de vivências e efemérides taipenses e não só!

Longos – Ano Novo de 2005