As Caldas das Taipas no Tombo dos Capões e das Galinhas da Colegiada de Guimarães (séc. XV)
Sexta-feira, Novembro 4, 2016

No denominado Tombo dos Capões e das Galinhas, que se encontra na gaveta dos pergaminhos do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta com a cota C-518, encontrámos referência à freguesia de São Tomé de Caldelas. Trata-se de um códice não datado escrito em pergaminho de cor amarelada, mas decerto elaborado há mais de quinhentos anos. Mantém a encadernação primitiva, em pele mole, embora a lombada já só esteja segura pela cosedura inferior. na capa pode-se ler: “Tombo do Cabido de Guimaraes / de todallas galinhas e capoes que / o dicto Cabido ha deante de / renda das casas e casaes / que pertencem ao dicto cabido. / Tombo das galinhas / G. 23. n. 18 ”.

O texto inicia-se no fólio 1 começando de imediato por indicar os capões e as galinhas que deviam servir de paga ao Cabido de guimarães, proveniente das rendas relativas às propriedades urbanas e rústicas que lhe pertenciam.

O códice é formado por 10 fólios, manuscritos a castanho claro, constituídos por 5 cadernos regulares, 5 bifólios, sem foliação. Apresenta uma estrutura regular, múltipla de dois (base bifólio). Pelo facto de ser um livro de registo de contabilidade, leva-nos a supor de que este tombo não seguiu um sistema de linhas por página previamente definido, visto que no interior do códice, ainda permanecem espaços ou mesmo páginas em branco. Por exemplo, muitos fólios foram deixados em parte ou totalmente em branco, não mostrando sinal de ter havido raspagem. Isto explica-se por tratar-se de um códice administrativo, de contabilidade das rendas, que a qualquer momento se acrescentavam novas contas e somas.

Não apresenta qualquer assinatura. Igualmente não se observa nenhum vestígio de picotagem nem de regramento, o que não será de admirar por se tratar de um códice administrativo, nos quais, usualmente não era feito regramento. Não tem iluminuras, no entanto, as letras iniciais que introduzem as propriedades de cada rua ou freguesia, são destacadas do texto, com o carácter de assinalarem a descrição correspondente. Em termos de características gerais a letra apresenta-se homogénea e regular, feita a uma só mão.

No que respeita a erros e correcções cometidos pelo copista que redigiu este tombo, encontrámos omissões de palavras, rasuras e acrescentos.

Na globalidade, o estado de conservação do códice é regular e o mesmo podemos afirmar quanto ao texto. Embora em muitos fólios o pergaminho apresente numerosas marcas de utilização, nomeadamente a existência de muitas manchas, devido ao frequente manuseamento ao longo do tempo e a condições ambientais desfavoráveis. Igualmente existem pequenas manchas de humidade que afectam o texto e o seu manuseamento provocaram um escurecimento das partes inferiores de alguns fólios, que também se entendem ao texto .

Este manuscrito não se encontra datado, por conseguinte está por determinar o ano da sua elaboração. No entanto, num artigo que publicámos em 2003 e numa comunicação apresentada em 2013, através de alguns dos foreiros referenciados no tombo e comparando os mesmos nomes existentes noutros documentos, propusemos como datas extremas de elaboração do tombo em estudo a década de 1441-1451.

Em relação à estrutura geral do códice, podemos afirmar que obedece a um esquema simples. Os títulos que enunciam a localização da propriedade descrita ocupam apenas uma linha sendo no entanto caligrafadas em tamanho destacado do texto. Quanto aos elementos descritivos, atendem, de modo geral, à seguinte disposição:
uso de Item, no início de cada descrição, com inicial maiúscula;
tipo de propriedade;
identificação do foreiro;
montante do foro anual em aves (capões ou galinhas).

Como o título sugere, o tombo resume a propriedade urbana e rural da mesa capitular, da qual advinha, anualmente para os cónegos vimaranenses uma renda em galináceos. Os bens que faziam parte do património capitular foram lançados por grandes títulos segundo uma apreensão do espaço: ruas de Guimarães, arrabaldes, freguesias do termo e localidades que ultrapassam os limites geográficos do concelho (Amarante, Braga, Cabeceiras de Basto, Caldas de Vizela, Celorico de Basto, Fafe e Vila Nova de Gaia).

As descrições de cada item são sumárias, faltando-lhes certas particularidades que poderiam tornar este documento mais interessante. Por exemplo, inúmeras vezes falta a indicação do foreiro e a respectiva profissão. Em nenhum dos casos encontramos as dimensões da propriedade enunciada nem as suas respetivas confrontações. A propriedade do cabido lançada no tombo era constituída por: adegas, almuinhas, campos, casas, casais, fornos, herdades, latas, lugares, moinhos, quebradas, quintas e vinhas.

Quanto às rendas totais, verificamos que os valores recebidos variavam entre um e dois capões e uma e quatro galinhas. Em síntese, eram rendimentos totais em aves destes bens urbanos e rurais: 60 capões e 569 galinhas.

Para a freguesia de São Tomé de Caldelas (fólio 7v), encontrámos a referência de que a Colegiada de Guimarães usufruía duas galinhas pelo Casal da Taipa, que trazia emprazada Vasco Afonso.

Através da elaboração deste tombo, o Cabido da Colegiada de Guimarães intentava um maior controle das suas receitas em galináceos, que provinham dos foros das propriedades emprazadas, ou aforadas perpetuamente e de censos perpétuos instituídos sobre imóveis.

Sobre este documento medieval, veja-se:

OLIVEIRA, António José de – “O tombo dos capões e das galinhas da Colegiada de Guimarães (séc. XV)”, in Os reinos ibéricos na Idade Média: Livro de Homenagem ao Prof. Doutor Humberto Carlos Baquero Moreno, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto e Livraria Civilização, 2003, vol.1, pp. 225-243.

OLIVEIRA, António José de – Comunicação denominada: “O Tombo dos Capões e das Galinhas da Colegiada de Guimarães (século XV)”, apresentada no âmbito das comemorações do 10.º aniversário do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta na Casa Navarros de Andrade, que decorreu no dia 28 de Junho de 2013, nas instalações do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta.