A propósito dos Miró
Quinta-feira, Outubro 13, 2016

Incluo entre as consequências positivas da Capital Europeia da Cultura de 2012 o aumento de competências no tecido associativo vimaranense. Os quase quatro anos passados desde o final do evento mostraram isso mesmo. As estruturas locais estão mais aptas para montarem projectos interessantes, inovarem nos seus conteúdos e acrescentarem camadas à programação cultural na cidade – que deixou de ser quase exclusivamente baseada no esforço directo da autarquia ou de estruturas por ela participada, para ter propostas mais diversificadas.

Há hoje muitos mais concertos de música alternativa em Guimarães, por exemplo; nasceram festivais na música clássica e no jazz e novas iniciativas na área do cinema; foram criadas novas associações e as que já cá estavam melhoraram genericamente o que faziam, quer em termos de relevância artística, quer de potencial de comunicação e atracção de públicos. A Guimarães 2012 foi, por isso, importante para que hoje tenhamos um tecido cultural mais capaz e isso é bom para o concelho.

Infelizmente, a competência crescente das estruturas culturais não significou também um amento da preparação dos actores políticos para discutirem o tema. É certo que Guimarães tem um vereador da Cultura qualificado e com um pensamento de longos anos sobre o tema, que o tornam relevante à escala nacional. Mas se olharmos à volta não vemos muitos mais políticos locais com capacidade de ter uma discussão profunda sobre arte e cultura. Por exemplo, na Assembleia Municipal encontro quatro ou cinco pessoas com essas qualidades, o que é manifestamente pouco. E percebe-se claramente a falta de uma figura capaz de ser vereador da Cultura por uma eventual câmara PSD-CDS nas suas fileiras.

Não estranha por isso que, de tempos a tempos, tenhamos momentos de galhofa involuntária proporcionada pelos políticos locais quando falam sobre cultura. O mais recente foi a “troca de galhardetes” entre PS e a Coligação Juntos por Guimarães a propósito da colecção de trabalhos do artista plástico catalão Joan Miró que pertenceram ao BPN – e que a mesma coligação, mas no Governo nacional, queria vender em leilão.

Primeiro, os deputados do PS na Assembleia da República reivindicaram a exposição “temporária ou permanente” de parte da colecção Miró em Guimarães, no Centro de Artes José de Guimarães (CIAJG), o que é politicamente desastroso na forma e infeliz no conteúdo. Respondeu a Direita, dizendo concordar com a reivindicação, mas criticando o PS por não terem sido os seus representantes locais a apresentar a proposta. Fez aquilo que a Coligação tem sempre feito: um número político por motivos estritamente partidários. Conteúdo: zero.

É que em nenhum momento, os deputados do PS ou a Coligação puseram sequer em causa que trazer os Miró para o CIAJG fizesse sentido. O CIAJG é um museu com um patrono, José de Guimarães? Haverá possibilidade de diálogo entre as suas obras? O CIAJG é um centro de arte contemporânea; Miró é um artista moderno. Alguém pensou sobre o que isso significa?

Não ignoro o potencial que a colecção Miró – no seu conjunto – tem em termos de capacidade de atracção de públicos e de criação de um novo facto cultural numa cidade. Mas tenho sérias dúvidas que esse seja o caminho certo para Guimarães e para o CIAJG. Para a cidade, trazer os Miró de forma permanente criaria um risco de monocultura na oferta capaz de pôr em causa tudo o resto à sua volta, por falta de escala. Se a vinda dos Miró fosse temporária, criaria apenas um efémero momento de atenção. Para o CIAJG, a exposição das obras de Miró também me parece fazer parco sentido. Porque Miró iria ofuscar José de Guimarães – que é o motivo pelo qual aquele equipamento foi construído e tem que ser sempre a sua maior força.

O CIAJG tem problemas. Tendo uma proposta curatorial que me parece inatacável, ainda não conseguiu afirmar-se fora dos círculos da arte contemporânea nacional – que são reduzidos, dado o país em que vivemos. E isso tem consequências a nível de público. A fraca comunicação também não ajuda à sua visibilidade. Mas o CIAJG é mais do que números e foi para isso que foi criado. Teremos políticos capazes de perceber isso e ajudar a encontrar as melhores soluções para corrigir os seus problemas? Ou vão continuar a fonte de descredibilização do próprio espaço, como com este episódio (ou a inesquecível proposta do PSD para fechar o sítio)?

Jornalista do Público

A propósito das diferentes “idades”…
Sexta-feira, Junho 12, 2015

A idade, o passar do tempo, a areia que escorre inexoravelmente na ampulheta da vida, não perdoa. O invólucro pode estar bom (mesmo para quem não recorre às plásticas!) mas o CC (Cartão de Cidadão) é insensível e não mente.
Preto no branco, a data de nascimento situa-nos numa determinante fase- infância, adolescência, idade adulta, 3ª idade e, fala-se agora, numa 4ª idade.

Repito, o revestimento pode mentir, mas o “recheio” raramente mente. É interessante a evolução. Até aos dezoito anos, o tempo anda a passo de caracol, arrasta-se lentamente, muito lentamente… passam-se séculos angustiosos de espera para o grito do Ipiranga que nunca mais chega. Depois… os minutos enlouquecem e perseguem-se no relógio como numa corrida contrarrelógio em que cada ano quer chegar primeiro. E dobram-se os trinta. Não se é peixe nem carne. Não se é um catraio, mas não se tem o “peso” de um adulto. A década passa depressa e dobra-se o cabo dos ENTA e começa a verdadeira tormenta.

Começa-se a pensar no legado. Que fiz, que quero ainda fazer, que devo fazer,… mas essas angústias dão lugar à “liberdade”. Finalmente, o que se afirma tem peso, é válido e varre-se de vez com a aceitação submissa das ordens dos progenitores… e não só.

O meio século traz ainda uma maior emancipação: a opinião dos outros deixa de importar ou importa muito pouco. O “eu” pode ser exposto agradável ou desagradavelmente que não é isso que tira o sono. A opinião que temos de nós próprios é que interessa. Os outros só têm de nos aceitar ou de dizerem entredentes ou em voz bem alta (talvez porque pensem que a surdez se instale aos cinquenta!) que estamos xexés e que já não dizemos coisa com coisa. Entre estes, contam-se frequentemente os filhos.

Aos sessenta, a “liberdade” é completa. Nada nos inibe de fazer “papel de idiotas”, porque nos estamos verdadeiramente a borrifar (perdoem-me o termo menos próprio!) para o que os outros possam pensar de nós. Estou a falar de quem assume a idade que tem e não tem problemas em reconhecer que precisa de usar óculos para ler as letras miúdas (vista cansada!) e que as dobradiças estão a precisar de óleo- umas doem ao subir as escadas, outras é na descida das mesmas. Ora, como vamos ter de trabalhar até aos 70 (para lá caminhamos!), esperemos que coloquem escadas e tapetes rolantes nas escolas e aquecimento nas salas para o corpo docente (que entretanto estará xexé mesmo!) poder dar aulas a jovens que não se preocupam com a escola, que não têm objetivos, que não respeitam nada nem ninguém (muito menos pais e professores!) e que “nasceram” com o direito a terem tudo, seja de que forma for. É arrepiante, mas, infelizmente, é a verdade nua e crua.

Mas falava do avanço inexorável da idade. E, quando pensamos que vamos finalmente poder descansar, aparecem os descendentes, os netos que, como todos os netos, vão exigir aos setentões o que antes se exigia aos cinquentões, ou seja, que repitam pela centésima milionésima vez a mesma história com as mesmas palavras, enquanto fazem outra coisa qualquer. É que estes agora já nascem com o botão MULTITASK incorporado, pelo que têm de estar constantemente em movimento e a fazer coisas em simultâneo: ouvir música, mandar SMS, teclar no Facebook (agora é o Twitter que está a dar!), passear pela Internet por sites a que não deveriam ter acesso (mas onde entram pela porta das traseiras!), ou seja, fazer tudo, tudo… menos estudar. Para quê?

Os xexés dos pais, entretanto, chegados aos 50 correm o risco de ainda não ter emprego, já que os ainda mais descarrilados dos avós, na década dos oitenta, a tal 4ª idade, é que os continuam a manter… e não há problema… ou não haverá até que o(s) dito(s) parta(m) na viagem sem retorno. Uma coisa é certa. A minha geração “parte” farta de trabalhar- com quarenta e muitos anos de serviço no ativo. Esperemos que, no outro lado, se possa descansar e pôr finalmente um ponto final.

Por outro lado, como fã da ciência e da ficção científica, acredito que os avanços da medicina possam suavizar a nossa carga e os da tecnologia tragam a solução para o planeta com os recursos exauridos, com a poluição em acelerado, com o buraco do ozono e com todas as desgraças que se avizinham… Dizem que, desta vez, é um BIG CRUNCH. E tudo recomeçará do zero.

A propósito dos tempos que correm…
Terça-feira, Abril 15, 2014

Com olheiras e papos sob os olhos, estou com uma daquelas caras que metem medo ao medo e refletem, à primeira vista, noites mal dormidas. É o que faz ser professora! Sem horários rigorosos, principalmente quem está na direção, sem férias efetivamente gozadas. E… não vale a pena queixar-me…

Os cinquentas não são iguais aos trintas, eu é que ainda não me convenci disso! Que fazer? Aprender a não ser “viciada” no trabalho e a olhar pela minha saúde e bem-estar. Dizer NÃO em algumas situações (estou a aprender) pode ser a diferença entre a sanidade mental e a caixa dos antidepressivos. Quando se começa a “patinar” na estrada escorregadia da vida, o mais certo, para quem não tenha prática e jogo de cintura, é uma queda aparatosa com consequências mais ou menos graves. Ora, como o sentido de equilíbrio é muito apurado quando se é jovem, todas as piruetas são possíveis e permitidas e mesmo os trambolhões são menos perigosos. Duas décadas depois, por muito ginasta olímpico que se tenha sido, os reflexos diminuíram, a elasticidade não é a mesma nem a consistência óssea.

Não é por acaso que os professores começam a sentir um cansaço difícil de superar, quando a idade começa a pesar. É um esgotamento que vem de dentro, que se sente nos dias “cinzentos” tornando-o ainda mais sorumbático e macambúzio. Com a Troika, a paz de espírito é efémera. É tão fácil para as nossas cúpulas ministeriais porem os funcionários públicos a pagar a fatura! E já se ouvem novas vozes agourentas…

Depois ainda me dizem que estou “cinzenta”… Acho que, este ano, perdi a minha boa disposição algures por entre as leis e as normas que estão a desmantelar a escola que construímos a tanto custo pós o 25 de abril.

Arre, Diabo! Importa não descarrilar de vez, desabafar, escrever uns textos, distrair o espírito e esperar por um dia de sol aberto, risonho e bem-disposto que nos leve o ego para as nuvens e nos eleve a autoestima.

Somos realmente uns animaizinhos muito complexos e quando se desvenda um pequeno mistério sobre a nossa constituição física e psíquica, novos caminhos labirínticos surgem. A Ciência e a Tecnologia levantam hipóteses, descobrem soluções e forçam a humanidade a avançar à medida que vão evoluindo. Quanto mais se descobre mais há para descobrir. O homem é certamente a maior maravilha do mundo, a única que não pode ser jamais superada ou igualada.

Ouvi hoje que, pelos vistos, o cancro vai deixar de ser uma doença mortal para ser uma doença crónica. Belíssima notícia! Finalmente, algo positivo a acontecer. E assim acabo com um ar todo alegre e bem-disposto!

“A propósito de buracos…”
Quarta-feira, Agosto 10, 2011

O dia amanheceu primaveril e fresco, como vem sendo habitual neste verão, para depois se tornar sufocante lá mais para o meio dia e princípio da tarde.

Afivelei a minha máscara de boa disposição e saí para o sol que sorria e para o vento fresco que, ao abraçar-me, me provocou grande bem estar depois de uma noite mal dormida. Recebeu-me a rua toda esburacada por obras que nunca mais acabam (são umas atrás das outras: o telefone, a água, o saneamento e depois… há-de haver sempre um depois…), onde vou estragar os pneus da minha viatura. Bem estão as Estradas de Portugal ou a Câmara, já que nunca exigi que me pagassem pneus nem o conserto de jantes. Lorpas como eu há muitos por aí e, se bem que se diga que dos fracos não reza a história (leia-se dos lorpas), são maioritariamente estes que a fazem já que não se abalançam a pôr processos nos tribunais para fazerem valer os seus direitos.

Justiça tortinha q.b. a nossa e a de muitos outros, atrevo-me a dizer. Por isso nada quero com ela a não ser que seja estritamente necessário e, mesmo nessa ocasião, ainda penso duas vezes. A nossa vidinha já é bem confusa para a estarmos a complicar ainda mais.

E ando eu por aí a ensinar cidadania, esquecendo-me que ser cidadã é intervir, é também zelar pelos meus direitos, pois que, indiretamente, é uma forma de olhar pelos dos outros. Ninguém se lembra disso quando as coisas acontecem e preferimos guardar silêncio, aguentar. Quem fica a lucrar? Os aldrabões, os ladrões, os vagabundos da pior espécie que conseguem levar a sua avante sem que ninguém lhes ponha barreiras. E quantas vezes quem devia sentar-se no banco dos réus é o Estado. Que posso eu, simples cidadã, contra o réu Estado?

Há uns tempos, roubaram-me o telemóvel, um daqueles bonitinhos com máquina fotográfica, vídeo e uma data de acessórios que, para dizer a verdade, não me serviam para nada. Não sou partidária das grandes máquinas e para mim basta-me um que faça chamadas e que as receba. Nunca fui escrava da alta tecnologia (graças a Deus!), mas como tinha uns pontos acumulados e o meu telemóvel começava a ter um ar de “bem usado”, lá me deixei tentar pela compra de um jeitosinho que abria uma tampinha e era muito vistoso. Não aqueceu o lugar, porque era chamativo e mãos leves depressa o desviaram. Que fiz? Cancelei o telemóvel, cancelei o cartão e optei por um outro bem mais modesto, corriqueiro, uma dessas porcariazinhas que ninguém quer. Ora aí está. Claro que não devia ter feito isto. Devia ter apresentado queixa na guarda, ser chamada não sei quantas vezes a depor, incomodar uma data de gente (talvez entre eles o culpado!) e a mim própria para vir a saber daqui a alguns anos que o telemóvel até tinha viajado para a comunidade portuguesa e, finalmente, regressara ao país. (Isto que estou aqui a narrar é verídico!). Só que andar atrás do chip do meu telemóvel, despoletar a máquina policial e incomodar-me não me pareceu a melhor opção. Porquê? Chamem-lhe «comodismo», mas foi apenas para não ter mais chatices, porque o que é um facto é que lutar pelos nossos direitos dá muitos aborrecimentos e, às vezes, não compensa. O mesmo se passa com as rodas do carro e os furos. Mexer com uma instituição ou, no caso da polícia, pô-la em movimento é demasiada areia para a camioneta de qualquer um, a não ser que esteja muito bem calçado. Neste país, como em qualquer outro, não tenho nenhum prurido em reconhecer, quem tiver uma boa cunha ou conhecer a pessoa certa no local certo pode ir para a frente e lutar pelos seus direitos. Quem for um cidadão comum pode ficar com a consciência mais leve, mas também vai ficar com a carteira bastante mais leve e não verá resultados satisfatórios. Não estou a ser pessimista, estou a ser realista. Conheço alguns casos destes e, como funcionária pública que sou, com falta de aumentos nos últimos anos e o corte que lhe foi dado neste último (sem que fosse para aí tida nem achada!), pagando todos os impostos sobre todos os tostões que ganho (perdoem-me, agora é cêntimos!), não tenho dinheiro para deitar ao lixo só para ficar com a consciência leve por ter sido uma cidadã exemplar. Quem aspira à perfeição? Eu não. Vou, pois, exercendo a cidadania das formas que possam melhorar a minha vida e a de todos, mas lutar contra moinhos de vento e viver nas nuvens, não. Ninguém me peça isso. Gosto de ter os pés bem assentes na terra e saber muito bem onde piso e o que piso, para também ser capaz de detetar, atempadamente, a ocasião em que alguém vai tentar puxar o tapete para me fazer cair. E quantas vezes não nos apercebemos dessas rasteiras! É que, embora atentos, temos a tentação de pensar que os outros atuam da mesma forma que nós, que são tão sérios como nós e apanhamos surpresas bem desagradáveis ao descobrir que a desonestidade é bem mais usual do que se pensa.

A honestidade, eis um valor a incutir nos jovens para que se tornem cidadãos exemplares! É cada vez mais rara e considerada por muitos como sinal de fraqueza e de lorpice.

Como dizia, vou sendo lorpa à minha maneira. Não sei se será a boa maneira portuguesa, mas é a minha e a de muitos outros, eu sei.

E buracos, como se pode ver, há muitos, até na cidadania. Somos um país todo esburacado, em que o pior buraco é o da crise económica (e o da troika!), mas esse já começa a ser crónico. E o pior é que o buraco dos nossos orçamentos domésticos não para de crescer para com eles tentarem tapar o grande buraco que fizeram na nossa economia, esquecendo as matemáticas que nos dizem que buraco mais buraco são dois buracos e nenhuma solução. Mas isso levar-nos-ia por caminhos que não vale a pena percorrer… mais estradas estéreis, inúteis e esburacadas…

Mas que grande buraco!

A propósito do Plano Tecnológico, da falta de concentração e de outras coisas mais…
Sexta-feira, Maio 22, 2009

Num tempo em que as imagens nos invadem no dia-a-dia, a todos os momentos, podemos até compreender o motivo da falta de concentração da nossa juventude. Da era do digital, os jovens já só funcionam com base em teclados, monitores e imagens frenéticas e trepidantes. Seja sob a forma de SMS ou no Messenger, o código utilizado para se fazerem entender (que em nada se parece com a Língua Portuguesa, que o digam os professores!) é dificilmente perceptível por alguém leigo.

Perante esta constatação, como pode a escola motivar um jovem para a aprendizagem, para o estudo, como é que ela o pode cativar (como diz a raposa no Principezinho), como é que ela pode competir com as máquinas?

Será que o tal Plano Tecnológico que está a dotar as escolas com quadros interactivos, projectores de vídeo e computadores, que fornece computadores a alunos e professores (E-escolas) a um preço enganosamente baixo (cerca de 700€ por 3 anos de Internet para os professores!) e agora lança o Magalhães para o 1.º ciclo vai ser a resposta milagrosa para esta falta de interesse pela escola?

Como é que se pode gostar de frequentar uma escola com as paredes a cair, com infiltrações de água da chuva a ponto de chover nas salas, com um frio intenso pois não temaquecimento, com maus cheiros porque a rede de saneamento está a precisar de ser reestruturada, com a parte eléctrica num estado caótico, …? Afinal, o que é básico? Uma escola fisicamente atractiva ou uma sala com um quadro interactivo com a chuva a cair-lhe em cima?

Há qualquer coisa de muito errado nas prioridades que se estão a estabelecer. E que fazer com os Magalhães que, dois meses depois, já estão escaqueirados, porque os deixaram cair ou já deixaram de funcionar? Será que ninguém sabe como é que os jovens lidam com os brinquedos que lhes oferecem? É que para as nossas crianças, o Magalhães é um brinquedo um pouco mais elaborado e, para os que têm playstations e outras brincadeiras do género, nem isso é… e, como tal, o pequeno computador tem um tempo de duração muito limitado.

E… se os alunos já andavam tão arredados da escrita, exercício que acontece cada vez com menos frequência, como é que podem fazer as pazes com ela (capacidade adquirida apenas a partir dos 6 anos), se lhes metem um computador nas mãos?

Cabe ao professor ter o bom senso de recorrer às novas tecnologias apenas como mais um recurso educativo e ensinar às crianças a beleza da escrita com uma caligrafia personalizada e única (a nossa!). Como? O que é isso da caligrafia?

Escrever exige a tal capacidade de que falei no início e que peca pela ausência – a concentração. Essa é, hoje, uma grande barreira quase intransponível para o exercício escrito. Se não estou concentrado e escrever disparates, num processador de texto, é fácil corrigir; porém, se os faço na folha que tenho de entregar, lá fi cam. Não há teclas para «seleccionar e apagar» no papel. Pode haver a borracha, se estou a escrever a lápis,
e até o corrector, mas ambos deixam vestígios bem visíveis e uma apresentação defeituosa. Alguém gosta de ouvir falar em passar a limpo, voltar a copiar?

Que resta aos educadores, nomeadamente aos professores? A capacidade de serem criativos; de conseguirem surpreender os jovens com actividades originais e inesperadas; de se e os envolverem em projectos de âmbito local, regional, nacional; de nunca perderem a capacidade de sonhar com a mudança; de permanecerem fiéis ao seu público-alvo (os alunos) apesar dos contratempos e de manterem corajosamente hasteada a bandeira «SOU PROFESSOR!», contra tudo e todos.

E isto, se… SE (em maiúsculas!) os outros educadores (os de casa!) tiverem o bom senso de não se oporem aos desígnios dos professores. «Cada macaco no seu galho» diz o ditado – este parece ser outro dos problemas actuais. É que a macacada, de repente, parece ter perdido o Norte e não saber qual é o seu galho. Quantas vezes os pais descartam as suas funções e obrigações na escola? Por outro lado, quantos se imiscuem no trabalho dos professores e procuram impor-lhes regras e, principalmente, dizer-lhes como devem fazer o seu trabalho? E já nem quero falar dos TPCs, um tema já tão tratado e maltratado… Nos dias de hoje, ter filhos exige muita disponibilidade de que se não dispõe, reconheço! Então, os mesmos pais que se queixam dos tais TPCs despejam os filhos em vários locais: a escola que comanda; depois o ATL; logo a seguir, a natação, o judo, a patinagem, o ballet, a música e outras tantas actividades que ocupam o tempo livre dos jovens e os impedem de viver a sua infância, a sua juventude… Realmente, os miúdos não têm tempo para brincar…

Na hora de acusar, de sacudir a água do capote, é tão bom ter alguém para colocar à cabeça, para levar pancada… Quem? O professor, claro. Se já é constantemente posto em xeque pela administração, porque é que o não poderá ser pelo outro lado?

E assim se passam os dias deste ano lectivo mais que confuso e baralhado, cansativo e stressante. Mas, sabem o que vos digo?

Há mais de 30 anos que sou professora e ainda está para nascer quem me vai fazer parar de sonhar e de projectar!!

A propósito de um dia sem actividades lectivas…
Segunda-feira, Maio 1, 2006

São 12.30horas de um dia sem aulas, sem actividades lectivas, para ser mais exacta, como tenho muito poucos no ano, embora para muita gente, os professores continuem a ser uma classe que não faz nada, tenho de os aproveitar para fazer qualquer coisa de interessante, o problema é pensar em quê. Sinceramente, não sei como é que este país continua a andar para a frente (embora a passo de tartaruga, aceito!), quando os responsáveis pela preparação de toda a gente que se encontra no serviço activo (sejam médicos, engenheiros, advogados ou trolhas, carpinteiros, electricistas…) continuam a não fazer literalmente nada, há já uns 30 anos, pelo menos. É que esta nova moda de desrespeito para com a classe à qual pertenço veio com a Liberdade, porque, antes, a classe era bem mais respeitada se bem que mais espezinhada pelo poder.

Conquistaram-se algumas regalias e ganhamos um epíteto em troca – «não fazemos nada» que está a ser difícil de mudar ou de aniquilar.
Gosto bem mais deste último verbo pelo aspecto definitivo que apresenta, a sensação de acabar de vez, de destruir.

Mas, como de costume, já me perdi e estou lançada num caminho que não quero percorrer, porque não leva a lado nenhum. E discussões estéreis destas são como o próprio nome incapazes de dar fruto por pequeno que seja.
Dizia eu que eram 12.30horas de um dia sem actividades lectivas e também, como de costume, sinto-me perdida, já que me falta a droga habitual- a escola. Sou trabalho-dependente ou, pior ainda, sou trabalho-maníaca.

Dei já as voltas necessárias que qualquer dona de casa tem de dar (para além de professora também sou doméstica!) e olho para as moscas. Sentada no café, onde vim tomar um descafeinado (tanta informação contraditória sobre qual deles faz pior- o café ou o descafeinado- não me fizeram desistir do que não tem cafeína) pasmo perante alguns que já aí estão há bastante mais tempo do que eu (já cá estavam quando fui ao supermercado, aqui continuavam quando passei para ir a outros lados e aqui permanecem desde que entrei para tomar o meu «café») e parecem felizes com esta pasmaceira de olhar para ontem, de trocar conversas já ontem trocadas e anteontem e trasanteontem… Que tortura! Não sei ficar quieta sem fazer nada. No dia em que isso acontecer ou estou morta ou internem-me.

Podia pegar no carro e ir por aí à aventura. Não vou porque porque não gosto de conduzir. Ir ao volante, para mim, é perder o gosto da viagem. Estar atenta à estrada, aos que vão à frente e atrás, àqueles que procuram ultrapassar quando devem e quando não devem, para não falar dos que furam pela direita… impede-me de apreciar a paisagem ou de fechar os olhos e deixar-me embalar pela música, normalmente clássica, que acompanha a viagem, se for sozinha, porque quando acompanhada pelos filhos, a famosa metálica invade todos os escaninhos do carro e da mente como uma verruma que, laboriosamente, procura perfurar os tímpanos. Depois, estou sozinha e, quando assim é, não me apetece fazer nada. Só nestas alturas damos valor à companhia, mesmo que esta apenas exista, às vezes, para nos dar cabo da paciência. Sei de pessoas que não precisam de ninguém para sairem, fazerem programas, irem ao cinema.

Não sou assim. Sempre fui muito caseira e para sair tenho de ter companhia.
A reforma é uma época que me faz alguns arrepios, pois vou ter de me ocupar de qualquer forma. Quando vejo os reformados, não deixo de me interrogar: Como é que vou ocupar o meu tempo? Tenho as minhas leituras, tenho a minha escrita, tenho a minha música, tenho a televisão, mas, fora de casa, tem-se o quê? Os passeios higiénicos que só fazem bem e ajudam a regular o peso, a tensão arterial, o colesterol e outras actividades que ocupam activamente as pessoas, como acontece actualmente no parque com os campeonatos de «pétanque». Velhos são os trapos e estes é que se deitam ao lixo. É imperioso que se encontrem maneiras de ocupar os mais velhos, que já não estão no activo, mas que estão extremamente válidos e que podem ser uma mais valia para a sociedade pela experiência que possuem, pela sabedoria adquirida, pela paciência inesgotável que demonstram possuir quando os outros já desistiram faz tempo.

Agora que a reforma dos professores se vai situar nos 65 anos, muito sinceramente não acredito que estejamos em condições de ainda sermos de algum préstimo à sociedade. O cansaço psíquico reflecte-se no físico e, ou a medicina avança muito nos próximos 10 anos ou não acredito na sanidade mental dos professores reformados a não ser, claro, como em todas as profissões, na daqueles que trataram a profissão como um hobby, como um trabalho em part-time.

E mais uma vez aproveitei o facto de estar a encher pneus para puxar do bloco que sempre me acompanha e começar a anotar alguns apontamentos, algumas resmunguices, algumas ideias mais que anotadas, repetidas, gastas.
Faz bem desabafar e, quando é com o papel, tem um gosto diferente, porque ninguém nos lança epítetos mais ou menos agradáveis. «Que chata! Lá está ela a bater no ceguinho! Quantas vezes já ouvi a mesma história!» O papel, se resmunga, não se ouve e só pode lamentar o final que considere menos digno para a sua qualidade de folha em que tomar notas. Já as esferográficas, por vezes, negam-se a escrever ou, de repente, estamos nós lançados a escrevinhar qualquer apontamento, quando, num ataque de mau génio, resolve falhar e deixar a ver navios quem anseia por desabafar. É por isso que tenho sempre mais do que uma na carteira. Não são objectos fiáveis. E assim, desta forma, nunca estou descalça. Mas se estiver, também não me aflijo. Já pedi esferográficas emprestadas e escrevi em guardanapos de papel, em envelopes de correspondência recebida, em folhas dobradas que, às vezes, me aparecem na carteira com alguma anotação feita na escola ou em casa, onde tenho folhas em todos os cantos e cantinhos, bem à mão de semear. É tão bom perder-me num reino que é só meu, mesmo que ninguém o venha a ler…

Qualquer dia, quando me dispuser a isso, edito um livro. E não é preciso que me saia o Euromilhões, porque não é dinheiro que não se tenha. Tem de se atender às prioridades e, no momento, elas não passam pela publicação de nenhum dos meus livros juvenis ou colectânea de contos. Lá virá o tempo e, se o tempo não me pregar nenhuma partida, nem a saúde, o próximo Carlos, sangue do meu sangue, terá uma história publicada pela avó para ler.

Até onde pode ir a fantasia, o sonho de alguém, de um professor que, num dia sem actividades lectivas, não sabe em que ocupar o tempo…

A propósito de Ecos literários, televisivos e não só…
Quinta-feira, Março 4, 2004

Foi ao ler um artigo de um jornal sobre educação, mais que polémico mas sobre o qual não me vou pronunciar, que acabei por achar o pretexto para, em discurso directo, a questionar mais uma vez, respondendo à proposta que me foi feita pelo Reflexo desde a sua fundação e ao qual aproveito, no seu décimo aniversário, para desejar uma longa vida. Para quem não sabe, informo que a minha coluna começou por se chamar «AULAS» e que, por ter considerado o tema demasiado restritivo («dar aulas» nunca significou «educar», ou recebê-las, «ser educado»!) o seu nome mudou para «ECOS», bem mais sugestivo, acutilante mesmo, porque faz ricochete.
Um novo ano encetou os primeiros passos e novos-velhos ecos surgem. Faço mea culpa, mas a reflexão acabará por cair sobre o trinómio- Escola, Meio, Família (que também já é habitual!)- partes que deveriam estar igualmente interessadas e ser participantes no desenvolvimento harmonioso do indivíduo ou usando as palavras usualmente usadas (passo o pleonasmo), contribuindo de forma igualitária para a formação integral do ser humano, para a sua efectiva Educação.
Aliás, este é um assunto que me toca sempre e ecoa em mim de diferentes modos, porque me sinto tripartida.
Conhecemos a importância da família e da escola relativamente ao desenvolvimento físico e psíquico da criança em formação, tomando muitas vezes as vertentes diametralmente opostas de demasiado presentes ou demasiado ausentes. Como é que se pode estar ausente estando presente, quando ausência significa não-presença? Digo bem, significa. Mas qual será o sentido do que disse?
Bem a propósito, não resisto a citar José Saramago «Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma coisa, o significado fica-se logo por aí, é directo, literal, explícito, fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer, ao passo que o sentido não é capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros, quartos, de direcções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma estrela quando se põe a projectar marés vivas pelo espaço fora, ventos cósmicos, perturbações magnéticas, aflições»( in Todos os Nomes).
Feita a promessa, há uns tempos, de que diria qualquer coisa a respeito desta obra que tinha à cabeceira, quando a acabasse, abro aqui um parêntesis para confessar que a li aos soluços e que, quando a iniciei, a pus de lado por uns tempos. Esta última atitude é um dos Direitos Inalienáveis do Leitor enumerados por Daniel Pennac na sua obra «Como um Romance», mais precisamente o primeiro «O direito de não ler», mas creio ter faltado um direito que me atrevo a acrescentar «O direito de ler aos soluços, ou seja, aos bocadinhos de cada vez». Como interpretar tal facto? Mais uma vez vou em busca do sentido ou dos sentidos do acto realizado. Uma constatação se poderá fazer já à partida: a obra não me empolgou como «O Ensaio sobre a Cegueira» ou «O Evangelho Segundo Jesus Cristo», tragados de uma só vez, ou até mesmo «O Memorial do Convento», digerido em duas ou três refeições. Gostos não se discutem e todos têm direito a ter a sua opinião. O estilo lá está, facilmente reconhecível no seu intrincado Português, que foge à compreensão da maioria dos Portugueses. Talvez tenha sido o facto do tema versar sobre papelada, lugares recônditos cobertos de pó e de teias de aranha, de burocracia (a Conservatória e todos aqueles verbetes e certidões causaram-me arrepios e pele de galinha!), pois sou alérgica a tudo quanto mencionei. Talvez tenha sido pela consciencialização de que só existimos porque temos nome, temos uma identidade- não é a busca da essência de nós mesmos que perseguimos toda a nossa vida? E quantas vezes nos repetimos a pergunta: Porquê a mim? Quem sou eu? Que mal fiz?
Uma outra obra que considerei interessantíssima e que me esqueci de focar -«A Jangada de Pedra»- também foi lida aos bochechos. Gostei do tema e da forma como foi explorado- a Península Ibérica andar por aí a navegar feita jangada, a construção das próprias personagens, o jogo das implicações políticas, psicológicas e sociológicas que perpassa por toda a obra! Porquê então aos soluços? Não sei, talvez o cansaço, a altura em que a li (lembro-me, em pleno Agosto, um Agosto quente de há anos), talvez o seu estilo pessoal que exige uma leitura atenta, em demasia, para quem está em férias.
Creio já ter mencionado numa das minhas crónicas, que, era eu jovem, passou na televisão um programa com o professor Vitorino Nemésio «Se bem me lembro» de que não perdi nenhum. Era sua fã incondicional. Aquele homem começava a desenrolar uma meada e, quando acabava, tinha a seu lado uma grande quantidade de novelos multicolores que havia enrolado ou desenrolado, como queiram, enquanto procurava a ponta da meada que perdera com frequentes «bem, mas como eu ia dizendo». Não tenha a veleidade nem a imodéstia de me comparar a tão insigne homem de letras do nosso povo, mas padeço dessa mesma dificuldade/ qualidade(?) em seguir desenrolando/ enrolando a mesma meada. Quantas vezes isso me acontece durante as aulas, porque a imaginação ou o pensamento resolveram seguir uma pista, um clic que surgiu num texto, numa conversa, num TPC, no que aconteceu no intervalo,… Por isso me defino sempre perante os meus alunos como professora de Língua e Cultura Portuguesas, quantas vezes Cultura Universal, conforme o assunto que me empolga no momento tenha cariz nacional ou não. E também qualquer assunto me serve e nem um «mas como eu ia dizendo» me salva! Outras vezes nem sei como tudo começou para poder retomar o fio à meada; o jeito é começar mesmo um outro novelo.
E já agora que falo em programas do passado, havia um outro que não perdia: as conversas sociológicas, religiosas, teológicas, chamem-lhes como quiserem, do então Padre António Ribeiro (o falecido Patriarca de Lisboa), aos sábados à tarde (ou seria aos domingos?).
Foram dois homens que, sem serem professores de modo directo e tradicional na sala de aula, foram realmente meus professores e mentores à distância, quase um tipo de ensino mediatizado, efectivo e motivante, porque facultativo. Eis pois o segredo do sucesso por demais conhecido- a motivação, a que se associa o cariz, hoje diz-se perfil, das pessoas que leccionam. Era a empatia que aqueles dois grandes homens criavam com os telespectadores, o interesse que punham naquilo que faziam (qualquer pequeno assunto era tema de conversa!) e a forma como o transmitiam, em tom coloquial, que cativava o público de todas as idades, que ficava preso ao pequeno ecrã.
E, «como ia dizendo», fechando este enorme parêntesis, a formação dos jovens é tri-partida: a família, a escola e o meio para ela contribuem com pesos diferentes. A família peca na maior parte das vezes pela ausência, a escola peca pela impossibilidade física e humana de dar resposta a todos os problemas que afectam os jovens, não podendo responsabilizar-se a tempo inteiro. Resta o meio e o que acabei de citar foram dois exemplos magníficos de como o meio, de que a ocupação de tempos livres é uma importante parte (e deveria ser preocupação prioritária de toda e qualquer comunidade!), pode realmente influenciar, educar o jovem positiva ou negativamente. E poderíamos entrar pela violência gratuita da TV (em frente da qual os jovens ocupam horas e horas do seu tempo livre!), dos jogos de vídeo ou dos CD.Rom’s e passar rapidamente para a realidade- vejam-se os telejornais ou leiam-se as notícias de qualquer dos diários de grande tiragem… mas isso será tema para uma outra crónica.
Teresa Portal
Janeiro 2003