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Aprender exige “lentidão”
Terça-feira, Dezembro 6, 2011

Aprender leva tempo. O aprender exige “lentidão”, dizia Jorge Azevedo. Plenamente de acordo. Contudo, na escola de hoje, onde está ela presente? Seguindo os mesmos passos da sociedade em que estamos inseridos, com o stress a comandar todos os nossos atos, por mais pequenos que sejam, aprendemos a querer as coisas para ontem. Temos autoestradas, carros rápidos, máquinas para tudo… em nome da rapidez e poupança de esforços para termos tempo para outras coisas.

Contudo, a urgência que pomos em tudo quanto fazemos e na nossa vida, impede-nos de a gozarmos e dela tirarmos proveito. Veja-se. Com tantos modos e facilidade para comunicar – a Internet e o telemóvel são os mais rápidos e aqueles sem os quais nos sentimos despidos – comunicamos cada vez menos e temos menos tempo… para os outros, para a família e até para nós próprios. E estamos cada vez mais pobres “de espírito”, atrever-me-ia a dizer. Onde está a leitura, a reflexão, a contemplação?

Para se fazer uma coisa bem feita, seja em que campo for, é necessário tempo, paciência e perseverança, três características que desconhecemos no quotidiano. As 24 horas do dia não bastam e, por todo o lado, ouvimos queixas de que o tempo não chega para nada. Desde o acordar ao deitar andamos sempre em correrias desenfreadas, daqui para ali, dali para acolá, e acabamos com a sensação de não ter feito nada ou de ter ficado muito por fazer.

As listagens começaram a fazer parte da nossa rotina e em todo o lado temos post-its: no frigorífico, no espelho da casa de banho, na mesinha de cabeceira, na mesa de trabalho e… na agenda ou bloco que andam na carteira. Só que nunca têm fim as malditas listas… risca-se uma parcela… mas logo se acrescentam duas ou três. E o que consta dessas relações? Trabalho, trabalho, trabalho,… ou seja, tudo quanto nos provoca mais stress, mais cansaço, mais irritação.

Temos de aprender a alterar estes hábitos e começar a incluir cinco minutos de relaxamento, uma pausa para café, uma saída para arejar, um momento para fazer alongamentos, uns minutos para contar uma anedota e para rir. Qualquer dia não sabemos rir. Já prestou atenção aos transeuntes que se cruzam consigo? Ah! Esqueci-me de que a maior parte das vezes deve andar de carro e, se for como eu, não olha para os peões que seguem a sua própria marcha nos passeios ou bermas das estradas. Mas, quando puder, repare. Veja a quantidade de rostos sérios que se cruzam consigo, embrenhados nos seus pensamentos, testas franzidas, alheios a tudo o que os rodeia. Quando foi a última vez que se sentou numa esplanada e fez uma das coisas mais saborosas do mundo – nada, ou olhou para o sol e para os carneirinhos que se perseguem no céu, ou ofereceu uma flor a alguém, ou parou para apreciar uma paisagem, ou foi visitar um museu, uma exposição, ou foi assistir a um concerto, ou “ganhou” cinco minutos de vida a fazer alguma coisa de que gosta mas para a qual nunca tem tempo?

A “falta de tempo” conduz à falta de paciência. Quem pode tolerar erros ou faltas de alguém sem perder a calma, se não há tempo para repetições? E entramos no círculo vicioso de que tudo tem de ser feito à primeira, sem demoras, sem tropeções. Por arrastamento, a perseverança desaparece. À primeira dificuldade desiste-se, porque não há tempo e se receia errar. Depois, é só um pequeno passo para a depressão.

Na escola, o caos está montado. Onde está a tal “lentidão” conducente à aprendizagem? Como é que se pode ser lento se não permitimos que a criança evolua e aprenda no seu próprio ritmo, se o currículo é o mesmo para todos, se as escolas estão sujeitas a rankings de acordo com o sucesso escolar que apresentam, se os professores têm uma formação deficiente, ganham mal e não lhes é reconhecido nenhum valor enquanto educadores, se as matérias são privilegiadas em detrimento da aquisição de competências e de ferramentas para a vida, se… O rol seria infindável, mas não vale a pena chover no molhado.

Temos é de mudar as nossas perspetivas e de reaprender a andar devagar. “Devagar se vai ao longe, porque a pressa devagar, é a mais certa promessa, da certeza de chegar” diz a quadra popular e muito bem.

Ande devagar e aprecie a vida.