A paz social
Quarta-feira, Dezembro 15, 2010

Num contexto de preparação para o Natal e para o início do Novo Ano, em que celebramos, respectivamente, o Deus-Menino que nos traz a Paz, e o Dia Mundial da Paz como nosso compromisso diário e anual de construtores de pontes e de paz, abordamos hoje as bases para construirmos a paz social. Esta paz social é a que deve existir entre os habitantes de uma nação e na comunidade internacional.

Como já afirmámos, esta paz é hoje entendida não apenas como ausência da guerra, mas como algo de dinâmico a construir. Não se trata apenas de silenciar as armas, mas de trabalhar para que os vivamos segundo a dignidade de pessoas humanas, criadas à imagem de Deus. A paz é sobretudo um processo dinâmico, que envolve situações e elementos diversos que podem incrementá-la ou diminuí-la. A paz fundada no respeito de toda a pessoa e dos seus direitos. A paz que é justiça social e mundial.

O assunto da paz social pode ser apresentado segundo várias perspectivas. Optámos por nos referirmos a quatro necessidades básicas de todos nós, fazendo a partir daí as necessárias reflexões.

1. Necessidade de vida
Todos sentimos que a vida é o dom mais maravilhoso que possuimos. Daí a rejeição da guerra assassina e das armas de morte, inimigas da paz. O que a pessoa normal deseja é fazer tudo para conservar a vida. Cada um de nós desejaria permanecer eternamente jovem e assistimos com angústia à chegada do tempo da velhice, que nos encaminha para a inevitável morte corporal.

Por conseguinte, todos desejamos viver num ambiente sem a violência que mata. Sabemos como a guerra traz consigo a morte de soldados e civis, crianças, jovens, adultos e idosos. Morrem sem saber porquê. Outras vítimas da violência são os holocaustos de triste memória, isto é, a eliminação em campos de concentração de povos considerados de raça inferior. Vítimas da violência são também as pessoas que desaparecem, porque são incómodas para os tiranos. As ditaduras mais violentas não têm receio de se servir de todos os meios para destruir a vida dos adversários ou inimigos.

Portanto, a paz consiste em lutar contra tudo o que impede que as pessoas tenham vida plena e abundante, vida digna e feliz. Uma luta que é feita sem usar a violência. É com a não-violência que se deve conseguir para todas as pessoas a qualidade de vida a que têm direito devido à sua condição de pessoas humanas, criadas à imagem de Deus.

2. Necessidade de liberdade
Todos temos o desejo de viver em liberdade. Daí a rejeição de todas as ditaduras e de todas as repressões, inimigas da paz. A repressão é contrária a este desejo enraizado no mais íntimo de cada um de nós.

Assiste-se, contudo, à prisão de pessoas que pensam de maneira diferente dos ditadores, às torturas de cidadãos que são obrigados a confessar o que não fizeram, à proibição de falar ou escrever livremente, expressando as próprias ideias, à impossibilidade de circular livremente por todo o território devido aos campos minados, à imposição de regimes políticos rejeitados pela maioria, mas que interessam aos ditadores.

Portanto, a paz consiste em lutar para que todas as pessoas possam gozar da liberdade a que têm direito. Todos fomos criados para ser livres de tudo o que nos possa oprimir e impedir de crescer felizes. Nunca devemos descansar, enquanto houver uma pessoa oprimida à espera de libertação.

3.Necessidade de bem-estar
Todos temos necessidade de bem-estar. Daí nos sentirmos escandalizadas pelo facto de dois terços da população da humanidade viver na miséria, facto causador de guerras.

Toda a gente quer ver-se livre da miséria e ter acesso aos bens e serviços de que todos necessitamos para viver uma vida digna. Necessitamos da alimentação que nos mantém em vida, da habitação decente que nos abriga, do emprego que nos realiza e nos assegura a subsistência, dos cuidados médicos em caso de doença e de tudo o que nos permite aquele bem-estar a que todo o ser humano tem direito devido à sua dignidade.

Portanto, a paz consiste em lutar para acabar com a fome, os bairros de lata, o subdesenvolvimento, a marginalização, o desemprego… A miséria é o grande inimigo contra o qual deve ser declarada uma guerra pacífica, não violenta, pois o importante são as pessoas, que foram criadas para viverem de cabeça erguida, felizes.

4.Necessidade de realização pessoal
Todos necessitamos de nos sentir realizados. Daí a sede de paz e felicidade que todos sentimos e procuramos saciar com o consumismo.

Nesta sociedade de consumo, pode ainda alguém julgar que a realização pessoal está no sucesso, no ter muito dinheiro, de poder adquirir muitos bens. E então, para se poder ter mais dinheiro e mais poder de compra que os outros, não se vive em paz. Vive-se numa guerra permanente para esmagar os outros, explorar os outros, enganar os outros. E surgem as fortunas conseguidas à custa do trabalho dos explorados. Mas, quando uma pessoa se põe a pensar, verifica que não está aí a realização pessoal. Falta a dimensão espiritual da pessoa humana.

Portanto, a paz consiste em lutar para que as pessoas, além do ter, vejam que é importante ser mais. Ser mais solidárias, mais justas, mais fraternas. Que descubram como um estilo de vida simples, disponível para a partilha de bens pelos necessitados, pode ser uma fonte de paz na sociedade.

A paz social é um dom que vem de Deus. Ele suscita a fraternidade entre todos os homens, despertando nos seus corações sentimentos de caridade para com todos os que aspiram a mais vida, mais liberdade, mais bem-estar, mais realização pessoal.

A paz social é, simultaneamente, um empenho. Todos os cidadãos devem empenhar-se para que acabem a violência, a repressão, a miséria, a alienação. São estes os inimigos a abater, pois são uma ameaça à paz social. O desenvolvimento integral dos povos é o novo nome da paz!

Ao terminarmos este tema falando da paz social, temos de sublinhar mais uma vez que a paz mundial apenas se pode conseguir através da transformação interna de cada indivíduo.

É o que afirma o grande e famoso chefe religioso Dalai Lama:
“É um processo difícil, mas é o único caminho. A paz deve desenvolver-se, em primeiro lugar, dentro da pessoa. O amor, a compreensão, a generosidade são os elementos básicos da paz. Só quando estes elementos germinam no interior de uma pessoa, este ou esta são capazes de criar um clima de paz e harmonia. Esta atmosfera pode ser ampliada e difundida do indivíduo para a família, da família para a comunidade e, finalmente, da comunidade para o mundo inteiro”.