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A origem viária da Caldelas romana
Quinta-feira, Julho 16, 2015

Após o final das chamadas Guerras Cantábricas, que terminaram no ano 19 antes de Cristo, o Império Romano, que domina assim todo o Noroeste da Península Ibérica, estabeleceu as linhas orientadoras da nova política económica, demográfica e cultural que pretende implementar nesta vasta zona. A atual região do Entre Douro e Minho parece ter passado por um processo de pacificação relativamente rápida, mesmo antes do fim da guerra, facilitado pela existência de uma poderosa elite indígena interessada nas novas oportunidades trazidas pela Romanização.

A partir da cidade de Bracara Avgvsta (atual Braga), fundada em torno do ano 15 antes de Cristo, foi estabelecida uma rede viária, com diferentes estradas imperiais, que ligavam a capital regional a outras cidades importantes da Península. Entre estas vias, conta-se a estrada que ligava Bracara Avgusta a Emerita Avgvsta (Mérida), capital da província da Lusitânia. Embora se desconheça o trajeto exato dessa via, sabe-se que ela saía de Bracara na direção do vale do Douro, passando pelos atuais aglomerados de Caldelas e Caldas de Vizela.

O traçado das vias, que ligava as principais cidades fundadas pelo poder romano, deu origem ao surgimento, por si, fruto da ação dos mercadores romanos, mas também de novos proprietários de terras, indígenas ou provenientes de outras zonas, de pequenos aglomerados urbanos secundários, alguns dos quais viriam a ser sedes de município. Caldas das Taipas é um exemplo de uma povoação romana surgida neste contexto, sem uma “fundação” oficial, mas que foi surgindo e crescendo de forma mais ou menos orgânica, sem muralhas e sem uma planificação prévia. Conhecemos estes locais como vici (ou vicus, no singular).

O surgimento desta povoação na época Romana, provavelmente por alturas do câmbio da Era, e que deu origem à atual vila das Taipas, está relacionada com a passagem desta importante via, bem como à presença de águas salutíferas, as quais se desconhece se terão sido utilizadas ainda na época pré-romana. Caldelas seria então um vicus viário e termal.

Quanto a esta via romana, que tão importante foi para o desenvolvimento da povoação, restam-nos dois importantes elementos. Temos um marco miliário, que marcava as distâncias em milhas, recolhido na freguesia de S. Martinho de Sande*, e que está exposto no Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento. Este marco, que contém uma dedicatória ao Imperador Trajano, marcava a quarta milha a partir de Bracara. Temos depois uma ponte, a célebre “ponte de Campelos”, em Ponte, efetivamente construída em época Romana, e que pode ter sido o local de travessia do Ave desta importante via, embora localizada já a uma certa distância do vicus das Taipas.

Se o marco miliário foi, em boa hora, recolhido no Museu Martins Sarmento, a “ponte de Campelos”, embora num estado que todavia permite a sua utilização atual, insere-se num contexto muito pouco atrativo. Milhares de pessoas a deverão cruzar com frequência sem se aperceberem que utilizam uma infraestrutura que é, ao mesmo tempo, um monumento milenar. É pertinente uma valorização deste monumento que, de forma simples, permita reenquadrar um pouco a sua envolvente e disponibilizar alguma informação histórica. Teria cabimento num projeto de orçamento participativo?

* Nota do autor: recebemos de um dos nossos leitores um reparo quanto ao nome da freguesia na qual foi recolhido o marco miliário que referimos no texto. Este apareceu, de facto, na Freguesia de S. Martinho de Sande, e não em S. Clemente, como tínhamos escrito por descuido. As nossas desculpas aos leitores por este lapso.