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A minha Homenagem
Quarta-feira, Agosto 11, 2010

Soube que a cooperativa Taipas – Turitermas quis fazer uma homenagem ao médico, enroupando-a numa iniciativa que me pareceu ter mais de autopromoção do que de verdadeiro reconhecimento ao que o dr. Augusto representa para as populações. Por isso dela me distanciei.

Ao afastar-me deliberada e conscientemente, ofendi a minha memória, o que pretendo reparar longe do circo mediático das circunstâncias do acontecimento.

Eu era um miúdo de cinco a seis anos quando comecei a ouvir falar do senhor doutor lá por casa. Nesse tempo, eu vivia com as minhas tias na casa onde outrora fora o Hotel Braga, que pertenceu ao meu avô, cujo nome herdei e de que me orgulho.

Um dia, andando eu e o meu irmão em brincadeiras pelo quintal que havia nas traseiras com outros rapazes e raparigas tão garotos e traquinas como nós os dois, o meu irmão deixou cair um objecto cortante decepando um dos dedos do meu pé esquerdo, deixando-o preso por uma pelezita, julguei eu. Levaram-me a correr para o Posto.

No Posto Médico fui visto pelo pessoal de enfermagem primeiro atrás do qual veio o sujeito de óculos e bata tão branca como a das enfermeiras, com um objecto estranho pendurado ao pescoço. Era o senhor doutor.

Deitou na mão ao meu pé, mirou e remirou e deu ordens. Trataram-me. Eu não sei se naquelas anos da década de cinquenta do século passado a anestesia já tinha chegado às Taipas, mas durante muito tempo eu pensei que o meu dedo foi recolocado a sangue frio, porque a dor ficou bem gravada na minha memória.

Foi assim que conheci o dr. Augusto de quem ouvia falar quase todos os dias porque a minha tia Marieta trabalhava no Posto e o Posto era um ponto onde se cruzava e trocava conversas que alimentavam outras conversas.

Muito mais tarde, já eu morava em Guimarães com o meu pai e o meu irmão, comecei a ouvir falar no nome de um homem exemplar, médico generoso e sempre ao serviço, um médico dedicado aos pobres, como então se dizia, ou aos mais desfavorecidos, como agora se diz. E, além disso que já era bastante, um cidadão impoluto. Era o doutor Mário Dias, pai do doutor Augusto. Se antes tinha deste uma opinião favorável, passei a ter mais.

Depois, veio o 25 de Abril de 1974 e por dever partidário voltei ao contacto directo com o dr. Augusto, que entretanto ganhara publicamente dois apêndices passando a ser conhecido pelo dr. Augusto Dias de Castro. Era um democrata na linha do pai, mas não como o pai. Era independente, embora com simpatias pelo MDP/CDE e pelo PCP. Abordei-o ora para integrar as nossas listas, ora para as apoiar. A princípio não recusava, mas com o passar do tempo foi esmorecendo e foi sem surpresa que o vi encaminhar-se no sentido do vento, aparecendo ao lado do PS pouco depois de passar a Delegado de Saúde, se a memória não falha, quando me havia dado a justificação de querer deixar a política como argumento para não subscrever a última lista de apoio que lhe apresentei.

Mantemos uma relação pessoal e cívica saudável. Respeitamo-nos, e apesar de tudo o que aconteceu recentemente, entendo que merecia uma homenagem porque fez muito pelas gentes das Taipas, pelos mais humildes porque os abonados tinham meios para buscar outros cuidados de saúde e não queriam misturar-se com os pobres que calçavam socas e chancas. O que lhe fizeram foi um acto mal pensado. É o reflexo das suas mudanças de posicionamento, dizem-me, porque quem promoveu o evento só conhece a última parte de uma vida muito mais vasta e muito mais preenchida.

O doutor Augusto, cidadão e médico, marcou as Taipas. Talvez mais do que ele imagina e por isso é credor do reconhecimento que esta homenagem quis ser mais não foi.