A memória e o futuro
Quinta-feira, Dezembro 24, 2015

Na passada quinta-feira, dia 17, foi inaugurado o Centro de Ciência Viva em Guimarães. Este novo espaço tem a designação “Curtir Ciência”, referência feliz, que conjuga a extinta actividade das suas instalações, a antiga fábrica de curtumes Âncora, e a sua nova função. Esta fábrica, que durante anos se dedicou à transformação das peles e produção de couros, tem hoje um outro desafio, com a abertura ao público de sete salas dedicadas à divulgação científica e diversas áreas de conhecimento, com a chancela da Universidade do Minho. O “Curtir Ciência” fica integrado na rede nacional da Agência de Ciência Viva, que passa a ter a partir de agora vinte espaços espalhados pelo território nacional.

Esta cerimónia inaugural, sendo bem-vinda não deixa de ser tardia, pois desde 2007 que se fala neste equipamento e muitas foram as vezes que se tornou público o embaraço do atraso da sua abertura, atraso este nem sempre devidamente clarificado, porque nem sempre frontalmente assumido.

Pelo que sei sobre este assunto a maior dificuldade foi conciliar programas e objectivos com conceitos aparentemente opostos. Porque não é fácil querer preservar património edificado, mantendo determinadas características identitárias, que fazem parte do nosso passado e que faz todo o sentido preservar, com um programa voltado para o futuro, envolvendo equipamento altamente tecnológico e exigente, do ponto de vista do seu funcionamento e conservação.

Tudo indica que quando se tomou a decisão de instalar nesta fábrica este Centro de Ciência, estas limitações não foram correctamente avaliadas, o que não se entende, porque a fábrica já existia com as características actuais, e é fácil perceber que não serão as mais apropriadas para esta utilização principalmente em dois aspectos que hoje são bastante pertinentes: a dificuldade de percorrer sem obstáculos o percurso expositivo, principalmente para aqueles que têm mais dificuldades de mobilidade, e as condições ambientais que estarão quase sempre sujeitas à temperatura natural.

O anúncio da vontade em aumentar a área de utilização com construção modular e temática prevista no terreno situado entre o Instituto do Design e a Âncora permitirá resolver os actuais obstáculos e salvaguardar a melhoria do funcionamento dos dois conceitos.

A intervenção efectuada na fábrica Âncora é uma síntese perfeita de todos os elementos necessários para encontrar e mostrar a memória genuína do lugar. Quem visita este espaço não fica indiferente ao ambiente e a toda a envolvência que a sua forma, as suas cores e o seu cheiro nos transportam para um passado secular, carregado de histórias, quantas delas sofridas, de uma actividade laboral bastante adversa, sem conforto e quase toda ela exposta aos caprichos das condições climatéricas.

“…Em Guimarães a história não é uma estampa colada sobre o presente para ser olhada de relance por turistas apressados. É a própria vida de uma cidade que não perdeu o sentido último das suas raízes: o de ser, mais que uma rotineira continuidade biológica, um espírito, o espírito do lugar” – excerto do texto de Saramago que acompanhou o processo de candidatura de Guimarães a Património Cultural da Humanidade.

Nem sempre é fácil conciliar o espírito do nosso lugar com o futuro, mas consegui-lo é um grande desafio!

Boas Festas a todos!

Vereador da CDU na Câmara Municipal de Guimarães