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Ainda e sempre Abril…
Segunda-feira, Maio 26, 2008

Pretendia viajar com as palavras, mas parece-me que não vou a lado nenhum. Cansada, saturada, fiquei no mesmo sítio, embrulhada nelas, numa grande confusão: revolução, avaliação, desempenho, evidências, protestos, vigílias, marchas, …

E questionei-me sobre se o que nos trouxe o 25 de Abril (liberdade, democracia, igualdade, melhoria das condições de vida) ainda seria visível na sociedade portuguesa, pois que para a maioria (os abaixo dos 45/50) começa a ser apenas a data comemorativa de uma revolução conhecida para a História como a Revolução dos Cravos. Viver a História é muito diferente de a estudar, nomeadamente nos tempos que correm, em que a mudança é lei e tudo é precário e efémero.

Em 35 anos, tudo parece ter-se esfumado: a liberdade ainda vai sobrevivendo porque as gerações de Abril ainda continuam a ser (com os dias contados, que a idade não perdoa!) as que mais ordenam; a democracia começa a dar sinais de estar a fraquejar, a agonizar, atendendo à quase ausência de diálogo, ao exercício de um poder executivo ditador mascarado de democrático; a igualdade está cada vez mais desigual com alguns a arrecadarem enormes fortunas e a maioria a viver na quase miséria; a igualdade de oportunidades é o que resta de um slogan propagandista em que já ninguém acredita, pois continuamos na cauda da Europa e situamo-nos entre os parentes pobres desse colosso- a Unão Europeia- que não conseguimos acompanhar; a melhoria das condições de vida foi e é uma visão optimista que o 25 de Abril nos deu do futuro, já esfumada e transformada num fantasma do passado recente num país com cidadãos de primeira e de segunda, com os que têm uma vida economicamente estável e as outras, as famílias endividadas e já no limiar da pobreza (quantas!), que se reflecte na grande mentira das iguais oportunidades nas saídas profissionais (só se for para rir!).

Em Abril, véspera do aniversário da revolução, com a chuva a cair fortemente e o tempo enevoado, as perspectivas não podem ser mais desanimadoras. Longe vai o tempo em que, fizesse sol ou chovesse a potes, a juventude avançava para as manifestações comemorativas de cravo ao peito e grito fácil a saltar da garganta.

Hoje, essa juventude, na casa dos 50 e mais, está cansada e interroga-se: Valeu a pena? «Tudo vale a pena se a alma não é pequena» diz Pessoa que também exaltou a alma lusitana. Navegamos por mares cheios de mostrengos e perigos desconhecidos (outros conhecemo-los e bem!), porém, como país de navegadores e descobridores que fomos e somos, enquanto país de poetas e cantadores da saudade, temos de levantar a voz e cantar de novo o «peito ilustre lusitano, a quem Neptuno e Marte obedeceram». Aquele pequeno povo partiu da «Ocidental praia Lusitana» e construiu efectivamente um império que continua presente, ainda hoje, na cultura espalhada por todos os continentes e na língua, uma das mais faladas do mundo, contabilizando os falantes do país-irmão Brasil e dos PLOPS, onde a língua oficial continua a ser o Português.

Tenho orgulho em ser portuguesa e em viver neste cantinho abençoado por Deus. Por isso, compreendo muito bem a agonia dos nossos jovens a quem a perspectiva de arranjar emprego obriga a ter um espírito aventureiro e empreendedor e abarcar a Europa e até outros continentes como possíveis locais de desembarque. Somos cidadãos do mundo, a isso nos levou a globalização, mas deixem-me ser bem portuguesa e gostar de ouvir o fado (que, infelizmente, diz muito pouco ou nada às novas gerações!), a nossa canção nacional que vai encontrando eco em grandes cantadeiras como a Mariza, e olhar o mar e sonhar com novas aventuras e descobertas e ter saudades do que vivi e do que ainda vou viver. Sou tipicamente portuguesa, talvez uma «cota» já para as novas gerações.

O facto de estar nesta altura a leccionar Os Lusíadas afectou-me, sem dúvida. O tom grandiloquente da epopeia faz-nos repensar na vida, em quem fomos e em quem somos. Acho que não faria mal nenhum que a obra fosse um dos nossos livros de mesinha de cabeceira para, de vez em quando, relermos partes da epopeia como, por exemplo, a sua proposição para ajudar a levantar o ego e, aos governantes, talvez os tornasse um pouco mais humildes e democratas.

Em jeito de remate, um desafio: para quando um filme sobre Camões (o outro, a preto e branco, já velhinho, desapareceu!) e um grande musical ou uma grande peça de teatro ou um grande musical sobre Os Lusíadas? Sucesso garantido, com tantos milhares de alunos espalhados por milhares de escolas a estudarem, obrigatoriamente (por enquanto!), a epopeia!

E acabei a viajar com as palavras por um «passado recente» que ajudei a construir.
Esperemos que as aprendizagens de Abril se mantenham sempre actuais e que o povo não as esqueça. Cabe a cada um de nós não deixar que isso aconteça. Andar para trás, só o caranguejo. Devemos é olhar em frente e caminhar rumo a novas descobertas científicas, tecnológicas, sociais, pedagógicas, … que nos permitam tomar a dianteira e aí ficar a liderar.

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