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A estranha estátua sedente da Citânia
Quarta-feira, Junho 8, 2016

Quando falamos na época castreja, no período pré-romano, em castros em geral, vêm à memória as famosas estátuas de guerreiros, chamados “lusitanos” ou “lusitano-galaicos”, dos quais as mais célebres são as estátuas provenientes de Boticas e expostas no Museu Nacional de Arqueologia.

Também em Guimarães existem dois exemplares destas estátuas de guerreiros, conhecidos pela tradicional figuração de um escudo circular cobrindo o abdómen, que se encontram expostos no Museu Martins Sarmento, com as respetivas cabeças cortadas, quiçá por iconoclastia posterior. São dos testemunhos mais antigos e impressivos de escultura monumental em granito, cuja inspiração se desconhece, mas sobre a qual se especula: desde uma evolução das pré-históricas estátuas-menires, até comparações com esculturas contemporâneas na Alemanha, e mesmo os kouroi do período arcaico na Grécia Antiga.

Porém, sendo os exemplares expostos em Guimarães provenientes de Fafe e de Felgueiras, não conhecemos nenhuma destas características esculturas recolhida na área do Concelho. Quis o acaso que, na terra da grande Citânia de Briteiros, a maior Citânia que conhecemos, nunca tenha sido recolhida nenhuma destas estátuas, pese embora esta infeliz coincidência ter sido “compensada” com duas pedras formosas, uma e outra, aliás, das mais impressionantes que se conhecem.

Não, a única escultura antropomórfica recolhida até à data na Citânia de Briteiros é uma estatueta de 46 centímetros de altura. Foi detetada em Maio de 1876, nas escavações de Sarmento, sem cabeça, aparecida depois uns metros adiante. Representa uma figura sentada (dita “sedente”), com as mãos postas sobre o ventre, como que segurando um objeto. Ostentava um torques (colar rígido aberto) no pescoço, e parecem ver-se vírias num dos braços. As duas saliências visíveis no peito levaram Martins Sarmento, Mário Cardozo e outros arqueólogos, a classificarem esta estátua como representando uma divindade feminina, uma Mater. É, no entanto, possível, que estas saliências, podendo representar seios, embora muito imperfeitos, possam ser apliques de armadura. É, portanto, difícil definir o género da figura em questão, que pode representar uma figura divina, de facto.

Após vários anos guardada em reserva, devido ao seu estado de degradação, resultante de um restauro antigo, à base de ferro e massa de cimento, esta escultura foi recentemente intervencionada, tendo-lhe sido devolvida a devida dignidade. Integra, desde o mês passado, a exposição permanente do Museu da Cultura Castreja, em Briteiros, onde vários turistas, nacionais e estrangeiros, já se interrogaram sobre a enigmática expressão desta figura sentada.

Arqueólogo da Sociedade Martins Sarmento