A entrevista
Quinta-feira, Março 2, 2006

Li e reli a entrevista ao presidente da Junta publicada na última edição deste jornal. É um documento que fará história, por muitos motivos.

Nas palavras registadas encontro o homem, o cidadão e o político que fui conhecendo ao longo de muitos dias de convívio, de cumplicidades e de projecto partilhado. Revejo igualmente o populista sincero convencido que quando há vontade não há obstáculo que resista.

O presidente da Junta é um conservador inconformado, sincero e frontal. O modo como ele relata os contactos frustrados com o presidente da Câmara são o exemplo do que um político calejado, manhoso e carreirista nunca diria. Dele se pode dizer que não mede as palavras, mas não se pode negar o desejo de melhorar a vida dos taipenses.

E quando não se medem as palavras, quando alguém age como se tivesse poderes que não tem, em termos legais, acontece a perda do sentido das proporções e cai-se no ridículo. É para mim evidente que ele não sabe bem o que diz quando fala dos edifícios devolutos, do mercadinho e chama à solução os privados. Se não sabe o que diz, sabe muito bem o que quer: ele já provou ser hábil a lidar com a opinião pública e o que aos olhos do conhecedor é uma aberração, aos olhos do cidadão comum surge como manifestação de inconformismo e capacidade de decisão. E, no limite das suas palavras, como expressão de amor à terra e desapego do poder.

O modo como ele aborda as questões do parque de lazer, da requalificação do centro da vila e as relações com o presidente da Câmara, revelam a estratégia de confronto com o proprietário, com quem constitui obstáculo ao seu projecto, estratégia que vem de trás, de antes das eleições, uma estratégia concebida em ordem a exigir o possível e o impossível, reivindicando a posição de vítima e empurrando a Câmara para o papel de verdugo.

Pensar e agir como se o seu programa só dependesse de si e da sua equipa, ignorando ou mesmo hostilizando os legítimos proprietários, tripudiando sobre a lei das finanças locais ou sobre a lei de competências das autarquias são parte de uma opção que para alguns é suicida mas para ele e os seus é a razão oculta da candidatura. Atrevo-me a dizer que nesse sentido a lista do PSD usurpou o espaço antes ocupado pelo MTAC.
O populismo do presidente está-lhe na massa, não é pós-eleitoral. Como político experiente que é, e porque está acompanhado por outros eleitos igualmente experientes em matéria de política autárquica, ele não pode alegar desconhecimento dos efeitos perversos da sua postura, das suas palavras inflamadas, do seu procedimento, do tom agressivo e inamistoso com que trata a Câmara, o seu presidente, e Guimarães em particular. Porque assim foi, é e será, o presidente da Junta está a colher os ventos que semeou.

Ele olha-se ao espelho e vê um líder, alguém a quem o povo, pelo voto, confiou a missão de manter a pressão sobre Guimarães, exigindo mais e mais, pedindo a lua, colocando a Câmara entre a espada e a parede. Obviamente, entre capitular ou defender o primado da lei e do equilíbrio, o presidente da Câmara só pode escolher a luta. Sendo assim, o presidente da Junta que se prepare para cumprir o que anunciou: ser porta-bandeira do separatismo.