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A dita é a mesma, as moscas é que mudaram
Terça-feira, Outubro 3, 2006

O fim do ano lectivo de 05/06, à semelhança de anos anteriores, trouxe discussão, instabilidade, revolta, angústia e uma vontade generalizada dos professores de mandarem com a carreira para as urtigas e procurarem um outro trabalho onde possam ver o seu valor reconhecido.

É que nesta nossa nobre missão de educar, se há um que não mereceria estar na profissão, há dez que estão por vocação. Não estou com isto a dizer que discordo da totalidade das medidas que a senhora ministra pretende implementar. Há coisas na nossa carreira que estão mal e que só um pulso de ferro as conseguiria mudar e uma delas está ligada à avaliação dos professores, que é premente e prioritária.

Tem de haver uma maneira de separar o trigo do joio, uma vez que a avaliação actual não passa de uma fantochada, embora já se tenham conseguido implementar algumas medidas que começaram a dar alguns frutos, como a de obrigar os professores a fazerem formação para subirem de escalão.

Claro que aí outras questões se colocariam e, entre elas, a procura de uma resposta lógica para o facto de não ser fornecida formação aos professores que se encontrem no topo da carreira, ou seja, no 10º escalão.

Pelos vistos, as coisas vão mudar e os que vão ser equiparados a «titulares», um dos dois grandes patamares da carreira, neste momento, ignoram até onde vão ou poderão ir as proibições da carreira equiparada. Parece que vão ser mais do que as que se pensam. Se assim for, vamos ficar num impasse com os lugares de orientação pedagógica vazios por falta de pessoal «habilitado». As coisas continuam a ser muito mal feitas, em cima do joelho, e, mais uma vez quando o pessoal vai de férias. A última foi pôr os vice-presidentes a darem aulas. Não é que a mim me importe, porque sempre as dei e é uma coisa de que sinto a falta, porque o contacto directo com os alunos é tudo nesta profissão; porém, tenho de me doer pela falta de consideração para com o trabalho que desenvolvemos e que não é reconhecido. O Conselho Executivo só serve para levar com as culpas de tudo quanto acontece na escola, de preferência de tudo quanto acontece de mal, porque somos culpados aos olhos de todos- para os colegas que fingem ignorar o que se passa (quantos há que não sabem mesmo e que acham que há certas coisas que não fazemos porque não queremos!), para os alunos que procuram resposta para todas as dúvidas e para os quais deveríamos ser omniscientes e, principalmente, para os pés que, não podendo dar pancada na ministra ou outro representante do ME visível e acessível, descarregam em cima de nós com toda a sua agressividade e, quantas vezes, com toda a sua falta de educação. Porque, infelizmente, nos dias que correm, a «falta de chá» começa a ser notada em todas as situações, mesmo aos mais altos níveis.

Nunca fomos grandes consumidores de chá, embora tenha sido a nossa Catarina de Bragança que casou com Charles II da Inglaterra que para lá levou o costume de beber chá e que, hoje, é um dos mais afamados costumes ingleses- o «five o’clock tea» que eles inglesaram juntando-lhe um pingo de leite. Actualmente, mais do que nunca, estamos a precisar de beber chá em doses industriais, entenda-se, em ser educado, em cumprir com as regras da mais elementar cortesia. Não é fácil superar esta falta que, qual bola de neve, vai aumentando até sepultar todas as boas intenções num enorme bloco de gelo.

A falta de consideração pelos professores em geral e pelos CEs em particular é um dos piores defeitos da nossa administração também ela necessitada de beber chá.

A agressividade gera agressividade é um conhecimento geral da maioria dos professores (infelizmente, há tantos que acham que podem cutucar a onça com vara curta!), mas do desconhecimento da administração que trata quem trabalha com arrogância, com um despotismo que não leva a lado nenhum a não ser à revolta de quem é espezinhado depois de dar o corpo ao manifesto.

Não é fácil ser professor, educador nos tempos que correm e ainda vai ser mais difícil, porque entre os mais jovens, já ninguém quer ser professor. Eles sabem as dificuldades que os seus professores passaram e passam. Eles convivem de perto com o desgaste que a profissão provoca e recusam-na liminarmente. «Só se fosse louco» dizia-me um jovem há pouco tempo. «Eu quero um emprego em que possa ir para casa sem ter de pensar em mais nada. Eu bem vejo o que os setôres fazem. Bem, alguns pelo menos. Eu não estou para isso».

A nova geração pertence cada vez mais à geração do «EU»; nós, os que estamos no terreno há um bom par de anos, pensamos em «NÓS» e «ELES», pensamos no colectivo antes do individual, enquanto a sua perspectiva é individualista. Pudera! São obrigados a olhar! Pois se toda esta sociedade consumista, do usa e deita fora, do momentâneo, lhes exige que sejam competitivos desde o berço! Os mais fortes, os mais preparados, os melhores, os mais criativos, os mais competitivos serão os vencedores, os que poderão progredir nas carreiras que escolherem ou que lhes saiu na rifa «premiada». Os outros serão a massa anónima, a massa trabalhadora a quem se pede apenas que trabalhe, que exerça a sua função com competência e eficiência, porque até a estes a avaliação contínua e permanente poderá pôr no desemprego ou numa reforma antecipada.

Nada é seguro e todos estamos a trabalhar sem rede. Todos? Bem, diria que há uns quantos que conseguem sempre estar bem e encontrar desvios em todas as leis e normativos que emanam. Os políticos, em todas as épocas e sob todos os governos, de direita ou de esquerda, sempre conseguiram permanecer à tona, tanto que é comum dizer-se «A m… é a mesma (perdoem-me o simulacro do pequeno palavrão! Será que ainda pode ser assim considerado?), as moscas é que mudaram!».

Agosto, 2006

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