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A dedicatória de Urbano às Ninfas
Quarta-feira, Março 16, 2016

Das referências existentes aos vestígios de época romana na zona de Guimarães, uma peça singular, uma ara (pequeno altar) de granito, é o único achado romano detetado na área do atual centro histórico. Foi encontrada em finais do século XIX num edifício localizado na rua que já se chamou de D. Luís, depois “rua 5 de Outubro”, e que corresponde à atual rua das Trinas. Foi oferecida em 1885 ao Museu da Sociedade Martins Sarmento por Elias da Silva Machado.

É uma peça de cerca de 90cm de altura, com molduras decoradas na base e topo, sobre o qual se nota um foculus, pequena cavidade destinada a libações rituais. Na superfície que corresponde à face da peça, lê-se, de forma simplificada, a inscrição latina Vrbanvs pro Crysede Nymphis ex voto posvit. Neste texto, um indivíduo de nome Vrbanvs dedicou este pequeno altar às Ninfas, como cumprimento de um voto, em nome de outra pessoa (Crysis, segundo Mário Cardozo, Crysede segundo Armando Redentor, podendo referir-se a Criseida ou Crises, nomes épicos bastante invulgares nesta região).

E eis que nos surgem as míticas Ninfas como entidade dedicatária desta inscrição, inspirando as reflexões de Sarmento: “O christianismo correu com estas, como com as outras deidades pagãs, mas não são poucas as nymphas que ainda hoje infestam muitas fontes, disfarçadas em mouras, e, se algumas fontes santas nos revelam os seus segredos, talvez ficassemos sabendo que foram aquellas filhas de Jupiter as primeiras a descobrir as suas virtudes miraculosas.” (Sarmento, Revista de Guimarães, vol. 13, 1896, p. 11).

O achado desta peça, seguramente movida do seu contexto original, levanta várias dúvidas quanto à sua proveniência. Tendo sido recolhida numa construção mais recente, na qual deve ter sido reutilizada, torna-se praticamente impossível apurar em que circunstâncias terá ido esta ara parar a um edifício da rua da Trinas. Note-se que, em trabalhos arqueológicos realizados na área do centro histórico, não se recolheram, tanto quanto sabemos, materiais arqueológicos de época romana.

Armando Redentor, que data esta inscrição do século II d. C., coloca a hipótese de a peça se relacionar com o sítio arqueológico detetado por Martins Sarmento na área da Quinta de Gulpilhães, hoje urbanizada, a algumas centenas de metros a Leste do centro histórico. Não muito longe, na área da Escola Secundária Martins Sarmento, também se recolheram fragmentos de tubuli, grandes canalizações em cerâmica, da época romana, também guardadas no Museu da SMS.

Fragmentos de um puzzle, daqueles mais intrincados, que nos vão revelando a Guimarães de há dois mil anos atrás.

Arqueólogo da Sociedade Martins Sarmento