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Acto de vida – o meu país sabe às amoras bravas no verão
Quarta-feira, Junho 22, 2005

O poeta voou com as aves. Ficaram apenas as palavras.
Eugénio de Andrade, o último pagão, o poeta que na palavra-fonte encontrava, intacta, a água fresca das origens, morreu depois de muito andar morrendo na sua pátria que, como ele sempre dizia “vai de Junho a Setembro”.
Aquela estação que ainda palpita nos seus versos, sílaba a sílaba, descobrindo a brancura da cal e a face emudecida do silêncio, acolheu-o no seu colo materno e deixou um pouco daquilo que foi, luminoso, nas palavras essenciais que o poeta tanto procurou: corpo, fruto, praia, fonte, pêssego, linho, orvalho, rio, ribeira, mão, seara, amor…

Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz,
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.

A sua lição de luz renova-se em cada acto de vida: e isso não o mata a morte matada. Nem sequer o há-de matar o esquecimento, que tudo pode contra a luz do mundo.
Não creio que os poetas morram porque na poesia perdura aquilo que foram. Não creio que tenha morrido o capitão da alvorada, a voz firme que ardia em cada letra. O poeta voou com as aves. Deixou-nos apenas as palavras. Cabe-nos a nós, agora, continuar a criar o mundo, nessa arte onde se moldam as palavras que nos fazem. Tu, continua para o sul, com as aves.

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