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Acto de Fé
Quarta-feira, Janeiro 13, 2010

O Ano Velho passou o testemunho. Ansiava calçar as pantufas e juntar-se a todos os anos velhos dos tempos passados e, junto à lareira, tomar uma bebida revigorante que lhe aquecesse a alma. Foram 365 longos dias que tinham custado tanto a passar!

Bem tentara desviar o olhar das desgraças do dia a dia, mas não lhe tinha sido permitido. E fora obrigado a lidar com a fome que dizimava tantos milhões quando, nos países ricos ditos civilizados, se desperdiçavam tantos géneros alimentícios e tanta comida já confeccionada. Fora obrigado a ver as doenças que grassavam por falta de cuidados médicos e de medidas de higiene básicos. Fora obrigado a participar nas guerras que surgiam aqui e ali para lucro e benefício das grandes potências ou de uns quantos poderosos que dominavam o mundo enquanto os pequenos e os mais frágeis eram barbaramente sacrificados. Fora obrigado a lidar com a iliteracia de tantos cujos filhos não puderam escrever a cartinha ao Pai Natal, porque não sabiam ler nem escrever e a escola ficava muito longe, a quilómetros de distância por maus caminhos e sem transporte…

Bem queria deixar ao Ano Novo 2010 que, gatinhando e mexendo o guizo de prata solta pequenas gargalhadas de esperança, uma mão cheia de projectos e de planos que visassem eliminar as desgraças com que fora obrigado a conviver.

Infelizmente, a Humanidade nunca deixara de o surpreender pela negativa. Todas as tentativas que efectuara para combater qualquer mal do planeta, como por exemplo as questões ambientais, tinham saído goradas, já que havia sempre uns quantos que apenas se preocupavam com o lucro pessoal e o futuro imediato.

Encurvado, frustrado e desiludido, sem o ceptro do poder, o Ano Velho, em alguns segundos, fez a passagem.

E, por alguns breves momentos, a Humanidade parou e susteve a respiração. Como seria o 2010? E, durante as badaladas da meia-noite, comeram-se uvas passas, bebeu-se champanhe, formularam-se desejos e depois… tudo entrou na mesma normalidade.

Só que, com apenas dois dias de vida, quando ainda se recordavam os acontecimentos do passado 2009, 2010 fez ouvir a sua voz jovem e altaneira.

-Chega de recordações e de lamechices. Olhemos para o passado apenas para aprendermos com os nossos erros. Temos, todos juntos, de determinar metas alcançáveis para 2010, de definir objectivos prioritários, de estabelecer os resultados esperados e de decidir as estratégias que permitam a sua concretização. Basta que o Homem cumpra o que exarou na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Basta que a solidariedade e a fraternidade estejam presentes em todos os actos e acontecimentos da Humanidade.

Estupefacta, a Humanidade parou alguns instantes. Fez um exame de consciência, olhou para o passado e procurou antever o futuro nada promissor…

Nesta altura, a cronista acordou. Com o discurso do Ano Novo a ecoar-lhe nos ouvidos, acendeu o candeeiro da mesinha de cabeceira, pegou no bloco e na esferográfica e preparou-se para escrever. Eram 5 da manhã do dia 3 de Janeiro. Os problemas do mundo, a descrença na humanidade… Que pesadelo mais pessimista, mais “down”! É impossível viver sem esperança, sem acreditar no futuro. Como educadora, convive com ELE, diariamente, e sabe que, se há algumas ovelhas negras, a maior parte do rebanho é composto por ovelhas brancas, branco sujo ou da cor do algodão enxovalhado. E reconhece que as novas gerações estão despertas e preparadas para enfrentarem muitos dos problemas que as gerações mais velhas, as que agora estão no poder, não percebem ou fingem não perceber.

Ela faz parte dessas gerações “do passado” que têm é de dar o seu melhor para que as gerações futuras se tornem mais interventivas, mais capazes, mais conscientes e mais empreendedoras.

Acabou por não escrever nada no bloquinho de notas, pois adormeceu com um meio sorriso nos lábios. A sonhar com um planeta livre de poluições, de fome, de guerras, de iliteracia, de doenças, de tudo quanto é mau?

Schiu… não a acordem, deixem-na descansar e… acreditem.

Um 2010 cheio de boas realizações pessoais e profissionais para todos quantos me leram!