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A banca viveu acima das suas possibilidades
Terça-feira, Janeiro 8, 2013

Dados recentemente divulgados mostram que nos últimos dez anos a relação entre crédito concedido pela banca e o nível de depósitos que detinha era de 170%, quando o desejável seria 85%. Dito de outra forma, a banca nacional emprestou mais do dobro do que tinha em depósito, vivendo muito acima das suas possibilidades.

Tal aconteceu devido à adesão de Portugal ao sistema monetário europeu, primeiro, agravando-se mais tarde com a introdução do euro. De facto, a partir desse enquadramento europeu, abriu-se a porta a novas fontes de financiamento externo, com juros extremamente baixos e em condições vantajosas, que permitiam lucros rápidos, certos e seguros, a taxas tentadoras. A banca portuguesa financiava-se no estrangeiro a juros muito baixos e emprestava em Portugal a juros muito superiores mas mesmo assim muito mais baixos do que estávamos habituados em épocas anteriores.

A institucionalização do Banco Central Europeu (BCE), um dos pilares do sistema monetário europeu a par da moeda única, o euro, dotou a União Europeia de um mecanismo de supervisão bancária e de acompanhamento das economias dos diversos países aderentes que permite saber em tempo real o estado de saúde das finanças e da economia em toda a EU e em cada país em particular, através dos respectivos bancos centrais.

Serve isto para afastar a hipótese académica dos que em Bruxelas alegam desconhecimento do que se estava a passar em Portugal e dos que em Portugal tinham a missão de controlar a actividade bancária, como o Banco de Portugal, e que, como bem se sabe não viu nada.

Quem lidou com candidaturas aos fundos comunitários, do Feder ao Feoga, do FSE ao QCA, do PEDIP I e II ao Sistema de Incentivos à Modernização da Indústria Têxtil, aos Projectos de Investimento em Factores de Competitividade, às Acções de Demonstração, apenas para lembrar alguns, sabe que os financiamentos não eram a 100%, mas entre 40 e 80%, obrigando a um esforço financeiro por parte dos proponentes, a chamada taxa de esforço do candidato.

Portanto, foi para responder às exigências da União Europeia, que estado, autarquias e empresas recorreram à banca, financiaram-se, endividaram-se com o conhecimento e cumplicidade de Bruxelas, que não pode alegar desconhecimento porque as regras eram por si aprovadas.

Os procedimentos que nos foram impostos de fora – era pegar ou largar – são parte da explicação da tese do despesismo, quiçá a parte mais suculenta, com tradução ao nível da dívida externa portuguesa que é mais privada do que pública.

Já que assim foi, falta ao BCE e à União Europeia autoridade política para castigar uma economia atrasada que se limitou a respeitar as suas directrizes e recomendações para se modernizar. E falta autoridade moral aos que acusam o povo de apenas pretender uma vida mais digna enquanto escondem quem de facto ganhou com o negócio.

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