A austeridade: um valor e uma bússula em tempo de crise.
Segunda-feira, Janeiro 9, 2012

Falar da austeridade como um valor é tornar-se antipático. As pessoas não gostam que lhes falem da importância do esforço, do sacrifício, da disciplina de vida. Mas a palavra austeridade necessita de perder esta conotação negativa. Ela tem um sentido positivo enquanto que nos ajuda a viver mais felizes, a ser mais solidários, a construir uma sociedade melhor. A austeridade é um valor que tem de estar presente no nosso projecto de vida. Os instintos de posse e de prazer precisam de ser dominados, de forma a não prejudicarem a realização de um projecto de vida verdadeiramente humanizante. O tempo de crise que estamos a viver ajuda-nos a recuperar e a valorizar a austeridade, a disciplina de vida, a vida simples como uma bússola para o nosso dia-a-dia.

Vivemos hoje numa sociedade onde muita gente, ofuscada pela riqueza material, só vê o “ouro”, só busca ter bens de consumo. Não vê as pessoas, vê apenas o “ouro”. Faz-se da vida uma busca do prazer. Este prazer passa sobretudo por embarcar no consumismo: saborear os bens alimentares que nos são apresentados, vestir as roupas de marca, deixar-se envolver pelos espectáculos e festas. O que importa, segundo alguns, é gozar a vida fazendo o que a cada momento nos apetece e nos dá algum prazer.

Por conseguinte, falar da austeridade como um valor é tornar-se antipático. As pessoas não gostam que lhes falem da importância do esforço, do sacrifício, da disciplina de vida. De facto, a palavra austeridade evoca renúncia a caminhos de rosas sem espinhos, para trilhar caminhos pedregosos, mas que são os melhores para quem quer crescer em humanidade e valer mais.

Mas a palavra austeridade necessita de perder esta conotação negativa. Ela tem um sentido positivo enquanto que nos ajuda a viver mais felizes, a ser mais solidários, a construir uma sociedade melhor. A austeridade é um valor que tem de estar presente no nosso projecto de vida.

Todas as pessoas têm um instinto de posse que as leva a adquirir sempre cada vez mais coisas. E na nossa sociedade não faltam bens para adquirir e nos tornar a vida fácil. Para além deste instinto de posse, há ainda a pressão social que nos vem da publicidade cada vez mais sofisticada, subtil e provocante, e também nos vem das pessoas que connosco vivem e convivem.

Além disso, há um instinto de prazer que nos leva a fugir de tudo o que tem a ver com renúncia, sacrifício, esforço. E na nossa sociedade tudo parece concorrer para que o viver se torne num prazer, pois toda a gente se encarrega de nos querer vender o prazer pela compra de um automóvel de uma determinada marca ou pelo consumo de uma determinada bebida.

Os instintos de posse e de prazer precisam de ser dominados, de forma a não prejudicarem a realização de um projecto de vida verdadeiramente humanizante.

Na verdade, um projecto de vida com interesse para cada um de nós deve ter em conta que, mais importante que o ter, o que importa é o ser. Mais do que ter bens materiais, o importante é ser mais pessoa humana, isto é, ser mais saudável, ser mais feliz, ser mais solidário, ser mais justo, ser mais fraterno, ser mais serviçal, ser mais tolerante, ser mais honesto, ser mais dialogante, ser mais feliz.

Não se trata de renunciar aos bens materiais, mas de optar por um estilo de vida austero, pobre. Não nos referimos à pobreza sociológica, isto é, a essa pobreza não desejada que mantém muitas pessoas a viver sem dignidade, porque lhes falta o necessário para viver conforme a sua condição de pessoas humanas. Essa pobreza é para combater, pois não queremos na sociedade uma tal pobreza que humilha e escraviza.

Trata-se de viver um estilo de vida no qual se renuncia voluntariamente a bens supérfluos, dando testemunho de que para nós há algo de mais importante que o ter e o consumir desenfreadamente.

Esta austeridade está ao alcance de todos. E toda a gente é convidada a optar por um estilo de vida simples. Para tal, terá possivelmente de remar contra a maré, pois há sempre quem, por exemplo, não ache socialmente correcto não vestir a roupa de marca que a publicidade impõe.

Nos antípodas da austeridade colocam-se os gastadores, esses que querem é comer e divertir-se hoje o mais possível, porque o futuro é imprevisível. O melhor é coroarem-se hoje de rosas, antes que murchem, inebriarem-se hoje com o melhor vinho porque o amanhã ainda está para nascer.

Este estilo de vida simples tem de ser fonte de felicidade.