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A alegria: Mandamento ou enfeite?
Terça-feira, Fevereiro 2, 2016

Imaginemos que um qualquer governo ditatorial decretava guerra à alegria… Rir e sorrir estavam sujeitos a multas. Uma gargalhada aberta tinha pena de prisão. A sisudez cabisbaixa e carrancuda era a norma rígida do cidadão ideal. Só os mal humorados podiam aceder aos cargos de chefia. Todas as festas passavam a ser consideradas como desacatos de rebeldes fora da lei. Cantar e dançar eram manifestas desordens que mereciam uns dias de cárcere e tortura. As carpideiras e os tristonhos passavam a ser os ministros da religião de Estado, cujo ritual central era fazer pomposos funerais de tudo o que se aparentasse a celebração, júbilo ou festa…

O que acabámos de e sboçar, num exercício de imaginação, tem um claro ponto de contacto com a realidade. É que, no país onde somos presidentes, ou seja, na nossa vida pessoal, quando não vivemos afinados pelo diapasão da alegria, os gestos de insensatez multiplicam-se. A arbitrariedade do egoísmo passa a ser a lei. Além disso, a tristeza nunca é um mal de consumo próprio. Prejudica inevitavelmente todos os que nos rodeiam. Bernhard Häring afirma: «Quando fizermos o tão necessário exercício da alegria, não pensemos só em nós. O nosso próximo tem necessidade do nosso rosto alegre e, às vezes, também de uma palavra que o faça sorrir».

De modo algum, a alegria é o caminho alternativo à seriedade. Como recorda o nosso artista português, Almada Negreiros: «A nossa alegria é a coisa mais séria deste mundo». A alegria não é um luxo para certos espíritos cuja psicologia é mais leve, superficial e descomprometida. Também não é um enfeite para a candura dos ingénuos nem um adorno para os simples que vivem sem responsabilidades e cuidados. A alegria é antes um fruto natural da árvore do amor. Quem ama vive na alegria, manifestada segundo o próprio estilo. Assim, recorda S. Tomás de Aquino: «A Alegria não é uma virtude distinta da Caridade: é um seu acto ou efeito, e é por este título que é nomeada entre os frutos do Espírito Santo». S. Paulo repetidamente insiste na alegria como num mandamento a cumprir e não como uma devoção para quem nisso tiver gosto: «Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo vos digo, alegrai-vos! Que a vossa afabilidade seja conhecida por todos os homens» (Fl 4, 4-5). Um notável poeta e dramaturgo contemporâneo, e também cristão convicto, Paul Claudel, assim se exprime: «O único dever neste mundo é a alegria». Que dever, que mandamento tão feliz!

Padre