A Professora de Português
Terça-feira, Outubro 20, 2015

Por mero acaso dei com ela, naquele dia rabugento de despedida do verão, num recanto do jardim, o olhar fixo num ponto do infinito que eu não podia abarcar.

Vivia num mundo muito seu e inacessível ao comum dos mortais, disse-me a enfermeira. Não precisava da informação, pois era visível o alheamento
da mulher, abstraída do que a rodeava, absorta nalgum pensamento parado no tempo. Nem a mosca que teimava em pousar-lhe na testa parecia incomodá-la ou trazê-la para a realidade que já nada lhe dizia.

Não era Alzheimer, confidenciou-me, mas uma daquelas enfermidades modernas afins que atingem os incautos, os menos hábeis em manterem-se sãos de corpo e de espírito e cujo nome me escapou por complexo e intrincado. (Tenho uma fobia a nomes, até a nomes próprios. Fixo os rostos, as fisionomias… o resto é passado.) “Foi professora e começou a ter esgotamentos até que um dia… ficou do lado de lá.” – segredou-me. Arrepiei-me, fiquei mesmo com pele de galinha e senti uma sensação de enjoo como se o estômago se tivesse, subitamente, embrulhado.

Observei-a cuidadosa e curiosamente. Aparentava uns sessenta anos e devia ter sido muito bela. Dona de uma beleza etérea, receei que se esfumasse e desaparecesse de repente na brisa que a abraçava e da qual ela desprezava a carícia. Se a quisesse descrever, todos os adjetivos seriam insuficientes para a definir concretamente.

Foi então que algo a despertou do seu marasmo e se movimentou lentamente, virando-se na minha direção. Senti um choque elétrico. Aqueles olhos, aqueles olhos azuis acinzentados envolveram-me sem me reconhecerem. Eu… visitei o passado. “Como te chamas?” “Teresa.” “Então, Terezinha, vamos ambas embarcar numa aventura maravilhosa que se chama LEITURA e tu vais aprender a navegar nas águas mansas ou tormentosas das palavras e dos textos. E, se fores uma boa timoneira, ultrapassarás abismos e não soçobrarás em naufrágios intempestivos e repentinos. Saberás conduzir a tua nave com segurança a favor dos ventos e das boas vontades dos deuses. E, um dia, quem sabe, poderás vir a ser uma escritora famosa.” Aprendi com ela o gosto das letras, a ânsia de as juntar em textos originais que me encantassem e fascinassem os outros. Ser escritora… só nas horas vagas e para meu deleite. Alguns textos… também para gozo de quem me lê.

Sabê-la assim, reconhecê-la daquele modo incomodou-me mais do que seria de esperar. Ela moldou seres, cativou-os para a vida, enfeitiçou-os com os seus olhos mar tempestuoso, soprou-lhes uma alma e uma vontade próprias.
Foi minha professora de Português e eu segui-lhe as pisadas.

Uma dedicatória a todas as professoras de Português e muito em especial à minha, que Deus tenha!

Professora