A Miklos Fehér
Domingo, Fevereiro 8, 2004

Como alguns dos nossos leitores sabem, sou adepto fervoroso do Vitória de Guimarães, e nesse dia lá estava eu a assistir ao jogo no estádio, como alguns milhares de pessoas. Quando nada o fazia prever aconteceu aquela tragédia com o jogador do Benfica a tombar em pleno relvado. Foi impressionante, sei que posso estar a ser repetitivo, mas tenho que partilhar uma série de situações que assisti e que estando mo local foram únicas e arrepiantes.

Já presenciei centenas de jogos de futebol, entrei em muitos estádios, conheço muitas massas associativas e sei que a do Vitória de Guimarães é especial, defende e ao mesmo tempo pouco ou nada perdoa as intervenções da equipa adversária e por isso senti um arrepio quando naqueles minutos de desespero, em que no relvado, Miklos Fehér lutava contra a morte, as claques e adeptos do meu clube, Vitória de Guimarães, chamavam e aplaudiam o nome do jogador, foi comovente, e com toda a sinceridade não esperava que mesmo numa primeira fase em que não se supunha que fosse de tamanha gravidade a situação de Fehér, que a reacção fosse aquela, vi gente anónima a chorar, aquele silêncio profundo que é contranatura nos estádios de futebol, a ansiedade de milhares de pessoas que queriam que aquele Homem se levantasse, foi uma experiência única.

Como tenho facilidade de andar nos bastidores do estádio, devido às funções directivas que exerço no Vitória de Guimarães, pude visualizar as atitudes de desespero, principalmente dos atletas do Benfica, que tinham assistido aquele desenlace e que era perfeitamente compreensível, um colega e amigo tinha de uma forma trágica e sem qualquer tipo de razão tombado depois de ter esboçado aquele sorriso, que tenho a certeza que lhes vai custar ou mesmo nunca esquecer.
Sem qualquer problema assumo que a mim, nesse dia custou-me a adormecer, aquela imagem custava a desaparecer e depois, nos dias imediatamente a seguir fui sabendo e analisando várias situações, mesmo não sendo supersticioso, reflecti.

Aquela música que entoou, creio que pela primeira vez, no estádio antes do jogo se iniciar, da Dulce Pontes, “O Último Canto”, o facto de Fehér se ter estreado em Portugal, no estádio D. Afonso Henriques e consequentemente ter feito a sua última partida no mesmo, foram factos que tornaram e carregaram uma forte emoção nos dias seguintes, até o discurso que o presidente do Benfica, o Sr. Luís Filipe Vieira fez no funeral do atleta, fez com que muita gente que não é do Benfica deseje com sinceridade que o Benfica seja campeão, para se concretizar o desejo que ele formulou naquele discurso que foi sem dúvida tocante.

Embora, que numa situação triste, se a morte de Fehér tiver algum aspecto positivo a extrair que seja a paz e o apelo ao desporto pelo desporto.

Despeço-me sem mais até ao próximo número
E viva às Taipas!