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A Ecovia de Guimarães
Quinta-feira, Março 24, 2016

A Ecovia de Guimarães foi já apresentada publicamente em duas ocasiões: abril de 2015 e março de 2016. Estive presente em ambas, onde tive oportunidade de manifestar e registar algumas considerações.

Logo na primeira apresentação, foi para mim evidente a falta de correspondência entre a retórica e a prática. Temos uma retórica que anuncia que “o objetivo desta intervenção é generalizar o uso da bicicleta na vida quotidiana dos vimaranenses, transformando-a num meio de transporte e não somente num veículo de lazer ou de desporto”. Mas temos uma prática, anunciada sob a forma de projeto, que nos revela como prioritárias as ligações entre espaços de lazer, utilizando canais que pouco servem a bicicleta como meio de transporte.

A apresentação do passado dia 11, não só veio confirmar a dita contradição, como reforçar o meu receio dos efeitos perniciosos que a urgência de “currículo” para a candidatura a Capital Verde Europeia (CVE) pode causar.

Na base destas conclusões, está o troço eleito para a primeira fase da Ecovia de Guimarães, e a justificação dessa prioridade. A ligação de Mesão Frio à Veiga de Creixomil foi a escolhida, ligando espaços de lazer por um canal, que apesar de periférico à cidade, foi considerado como um eixo estruturante.

Como é que uma via periférica, que não passa nas principais infraestruturas, e se desenvolve a uma cota bastante superior à da cidade, pode ser considerada como um eixo estruturante?

Como é que um eixo tão estruturante não foi sequer previsto nas vias cicláveis da Planta de Rede Viária do novo PDM?

A opinião dominante nos utilizadores da bicicleta, é de que esta primeira fase da Ecovia de Guimarães será fundamentalmente de cariz lúdico e desportivo, e trará um contributo residual para a mobilidade ciclável. A aposta devia ser na ligação das vilas à cidade, na ligação a infraestruturas geradoras de movimentos pendulares, e na segurança de circulação para as bicicletas.

Estou convicto de que a Ecovia de Guimarães foi projetada e faseada sob a pressão da proximidade da candidatura a Capital Verde Europeia, e do preconceito de que uma grande obra emblemática na área da mobilidade suave será valorizada pela Europa.

A Ecovia de Guimarães, entendida como uma rede de percursos na cidade e no concelho, será certamente uma infraestrutura fundamental para a mobilidade ciclável, e se aliada a um verdadeiro e ambicioso Plano Municipal de Promoção da Bicicleta, terá boas probabilidades de a médio prazo criar novos hábitos de mobilidade no território.

Uma intervenção Mesão Frio – Veiga de Creixomil, que não inclua em simultâneo as vias no centro da cidade, e um plano de promoção da bicicleta, redundará numa tremenda desilusão para os atuais e potenciais utilizadores da bicicleta como meio de transporte, e um (novo) adiar da aposta na mobilidade ciclável.

Director da AVE – Associação Vimaranense para a Ecologia