1383 revisitado
Quarta-feira, Outubro 10, 2012

o Povo acordou.

Acordou e parece apostado em não dar descanso aos governantes, seguindo-os por toda a parte, vaiando-os, insultando-os.

O Povo está na rua criticando, às vezes com a rudeza própria dos traídos e enganados, as políticas e os seus praticantes.

É uma censura imensa e intensa a que invade as praças e avenidas, uma censura que junta novos e menos novos, o médico e o operário da construção civil, o arquitecto e o estivador, o professor universitário e o aluno, o investigador científico e o artista lírico, todos irmanados num desejo partilhado de gritar contra a austeridade e a troika, identificados como a causa do empobrecimento acelerado que faz Portugal recuar no tempo.

É o Povo de 1383 que está de volta e quer tomar nas suas mãos o poder que delegou em representantes que não corresponderam às suas expectativas. Entre a vontade popular e quem em nome dela tem governado cava-se um fosso que mandato a mandato se vem alargando.

A coligação que sustenta o governo está esfrangalhada, em cacos. Esbraceja e pretende transmitir coesão, mas o que o que se percebe é a perda de sinais vitais. Um dia destes vai morrer, e os indefectíveis continuarão a dizer que tinha uma saúde de ferro.

O Povo nas ruas diz que está farto de sofrer e de ser enganado. Tem razão. Há 36 anos que vive na ilusão.

Mas o Povo está a abrir os olhos. Prova disso foi a grandiosa manifestação de 15 de Setembro contra a troika e quem a apoia, repetida e reafirmada na vigília a Belém e na não menos importante manifestação de 29 de Setembro. O Povo já percebeu que dentro do memorando de entendimento, sem correr com os colaboracionistas e a troika, não tem uma verdadeira alternativa. O Povo já percebeu a essência do problema, faltando-lhe perceber que partidos o acompanham nesta percepção e que partidos fingindo ser solução fazem parte do problema.

As moções de censura que PCP e BE decidiram apresentar na Assembleia da República no seguimento das movimentações populares, revelam que ambos os partidos interpretam o sentimento do Povo e contribuem para que o seu descontentamento seja discutido ao mais alto nível, contribuem para que o Povo se reveja nos seus representantes e reacredite na democracia.

Difícil, difícil é o papel dos trapezistas. As moções de censura tiram-lhes a rede e sem rede a queda é mais aparatosa deixando à vista um buraco ao fundo das costas. E a hipocrisia.