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44 anos ao serviço da Educação!
Sexta-feira, Outubro 4, 2019

“Arejar as ideias, limpar as teias de aranha do sótão cerebral, varrer tanto lixo stressante acumulado, arquivar informação amontoada e espalhada por todo o lado, zelar pelo emaranhado confuso das células do sistema nervoso para evitar curto-circuitos, ultrapassar as dificuldades encontrando soluções empreendedoras e inovadoras, resolver problemas, raciocinar de modo eficaz e eficiente… estas eram algumas das tarefas de D.Mente.

Diga-se de passagem que começava a estar farta daquele “invólucro” humano. O Luís não era uma mente arejada ou acolhedora. Era um paspalhão pasmado e preguiçoso que a tudo fazia má cara e com resposta azeda na ponta da língua. Era um malcriadão. D.Mente bem se esforçava por lhe inculcar pensamentos benéficos, ações meritórias, respostas amáveis… Nada resultava. O rapaz, possuído por um espírito demoníaco, fazia ouvidos de mercador às suas sugestões e só tinha pensamentos maus, só fazia asneiras e respondia torto.

Completamente exaurida, a pobre mente começou a pensar em abandonar aquele lugar tão árduo, agreste e desagradável, onde estava sozinha a tiritar acompanhada pelos pensamentos negros do Luís. Não gostava de se dar por vencida.

Ela aceitara o desafio de pôr travão naquele rapaz indomável e, na noite em que trocara de invólucro e vira a saída da outra mente esquelética e deprimida, não pudera deixar de pensar que ela era uma fracota. Como estava enganada! O Luís não era flor que se cheirasse e, ao fim de pouco tempo, já D.Mente lamentava a sua afoiteza. Tinha-se enfiado voluntariamente no inferno. O raio do rapaz não tomava o rumo. Continuava insuportável. Não havia paciência que aguentasse as afrontas que sofria diariamente. Tinha-se esforçado tanto por limpar aquele cérebro do mofo, do mau cheiro, de tudo quanto pudesse motivar o comportamento irracional e a má índole do jovem e, apesar das medidas tomadas, o resultado tinha sido nulo.

Para cúmulo, a mãe do rapaz era pior do que ele e arranjava desculpas para tudo quanto o seu “santinho” fazia. Era uma joia o seu pequeno, os outros é que faziam tudo para o denegrir. Até já tinha ameaçado um professor com um processo disciplinar e andava com os vizinhos em tribunal. A mulher não era, pois, flor que se cheirasse. Quanto ao pai, D.Mente raramente o via e não era melhor rês.”

É o início de uma história? Não, é uma constatação do que sofre um professor. Substitua MENTE por PROFESSOR e tem aí a vida de um profissional que se desgasta uma vida inteira para enformar esse barro que, quantas vezes, teima em não adquirir forma.

É tão difícil ter uma turma que nos “encha as medidas”!. É como jogar na lotaria e sair-nos o grande prémio. Felizmente, eu tive a sorte de, ao longo de uma carreira de 44 anos, ter encontrado sete turmas (uma de Alemão, logo no primeiro ano em que lecionei no Liceu Nacional de Guimarães; outra de Inglês, quando vim para a EB 2,3 das Taipas há 34 anos; quatro de Português, três das quais lecionei o 3º ciclo todo, ou seja, levei-os ao nono ano e uma, apenas uma, do 2ºciclo dos quais fui professora no 7ºano quando a escola virou C+S e que agora estão com 40) que me deixaram saudades e lembranças boas daquelas em que nós vamos beber os “se bem me lembro”, como dizia o nosso Vitorino Nemésio. Depois há aqueles alunos soltos que nos marcaram profundamente ou por serem muito bons ou porque lhes demos “educação” e que hoje estão gratos.

É bom agora ser reconhecida pelos que foram meus alunos e até ser amiga de alguns no Facebook… e ter os últimos no Interact Club de Caldas das Taipas, que vieram atrás da professora e formaram o clube. Neste tempo todo, a Oficina de Jornalismo e Escrita Criativa juntou outros, aos quais não dei aulas, mas que comigo aprenderam a tratar por tu a Língua Portuguesa.

O tempo passa! E passou… Hoje aposentada, embora antecipadamente, nada lamento da minha vida profissional. Fui exigente, mas justa e sei que consegui que muitos alunos amassem a sua língua materna, apesar de trabalharem “estupidamente” para satisfazerem a professora que pedia mais e mais, A alguns passei o meu amor, principalmente pela escrita, e, eventualmente, haverá um dia um grande escritor.

Quanto a mim, vou encetar a carreira de escritora e ver se publico o que fui escrevendo e arquivando, ao longo dos anos. Nunca se pode fazer duas coisas ao mesmo tempo, porque uma sai prejudicada e eu era e sempre fui, acima de tudo, professora. Agora não, ponto final.

Vamos lá, editoras, aguardem! A escritora vai aparecer.