31.ª edição dos Festivais Gil Vicente “comprova investimento de Guimarães na criação nacional”
31.ª edição dos Festivais Gil Vicente “comprova investimento de Guimarães na criação nacional”
© Filipe Ferreira
Quinta-feira, Junho 14, 2018

Prossegue hoje a 31.ª edição dos Festivais Gil Vicente, que este ano leva ao palco peças made in Portugal. Rui Torrinha, programador do Centro Cultural Vila Flor, afirma que o certame “comprovando o investimento de Guimarães na criação nacional”, em que a cidade-berço esteve envolvida em duas coproduções.

“Casimiro e Carolina” é a peça que retoma os Festivais Gil Vicente, hoje, pelas 21h30, no grande auditório do Centro Cultural Vila Flor. Segue-se “Sobre Lembrar e Esquecer” e “Perplexos”, de Cristina Carvalhal, encerra o certame. É o coroar de uma iniciativa que está a mostrar “uma configuração que faz com que o teatro nos levante uma série de questões, neste momento, absolutamente fundamentais nas nossas vidas”, lembra o programador.

Para além da importância de “os festivais terem esta característica de tentar fixar o conhecimento no território”, Rui Torrinha destaca a relação com a Universidade do Minho, que trouxe “o olhar sobre as atividades dos próprios alunos do polo de Teatro, do curso de Teatro da Universidade do Minho”. Trata-se de “uma experiência, no fundo, que intensifica esta intenção do conhecimento enquanto investimento, também, do próprio território”.

Sinopses das peças em cena

A abrir a segunda ronda de espetáculos dos Festivais Gil Vicente, Tónan Quito traz-nos uma história de amor. “Casimiro e Carolina” (14 de junho), de Ödön von Horváth, fala sobre as sequelas da crise de 1929, a fazer lembrar esta que ainda atravessamos. A depressão é grande, o desemprego elevado, mas, apesar das medidas de austeridade tomadas pelo governo, as personagens encontram-se numa festa da cerveja para se divertirem, beberem e esquecerem os problemas. Casimiro e Carolina é um casal que se ama – ele está desempregado, ela trabalha – até que entram em rutura, discutem, separam-se e a ferida fica aberta. O desespero do qual fugiam fica visível. Como ficaremos nós quando estas políticas passarem? Há esperança? É possível amar em tempos de crise? Não poderia haver melhor altura para fazer “Casimiro e Carolina” do que esta em que vivemos, nestes dias tão violentos.

Na sexta-feira (15 de junho), Estelle Franco, Mariana Ricardo, Masako Hattori, Paula Diogo e Sónia Baptista desafiam-nos a refletir sobre o modo como a memória opera nas nossas vidas em “Sobre Lembrar e Esquecer”. Vindas de lugares e experiências distintas, estas cinco criadoras-intérpretes estabeleceram um território de partilha para refletir sobre aquilo que nos move, sobre o mundo que nos rodeia. E sobre aquilo que esquecemos. “Sobre Lembrar e Esquecer” é a primeira peça de uma trilogia, inspirada pelo livro “Les Formes de l’oubli” do antropólogo Marc Augé, que se completará com “A Estação de Outono” e “Paisagem”. Três espetáculos para refletir sobre o modo como as lembranças operam nas nossas vidas: o que escolhemos recordar ou esquecer ou o que somos capazes de recordar e esquecer. Por hábito, por condicionamento, por autopreservação, por acidente. Nós somos as nossas memórias. E se as nossas memórias não são mais do que um produto da nossa imaginação (como disse André Breton), o que somos nós então?

O elenco de espetáculos fecha com “Perplexos” (16 de junho), de Cristina Carvalhal, uma peça em que a realidade parece estar constantemente a ser reformulada, raiando o absurdo. Os casais, as férias, os filhos, as empregadas domésticas, Darwin e a lei do mais forte, a sombra nazi ou um baile de máscaras, são alguns dos temas presentes nesta espécie de comédia de costumes, assombrada por Pirandello.  As personagens multiplicam-se. Mas afinal, o que é que é real? Talvez apenas uma certa apetência pelas grandes questões filosóficas que nos perturbam desde Sócrates. Quando, em 2011, encenou “A Pedra” de Marius von Mayenburg, Cristina Carvalhal ficou entusiasmada com a perspetiva escolhida por Mayenburg de abordar a narrativa a partir da plasticidade da memória, não só a sua capacidade seletiva, mas também a sua capacidade de reinvenção. “Perplexos” parece ir ainda mais longe nesta questão da memória, e consequentemente, da identidade, como se cada nova cena nos convocasse a esquecer, ou a permanentemente reconfigurar o presente, negando mesmo as memórias mais imediatas. E assim termina esta celebração da arte do teatro, no palco maior do CCVF que, ao longo de duas semanas, se entregou por completo à criação teatral nacional.

Veja o jornal dos Festivais Gil Vicente aqui.