100 anos da Revolução de Outubro e revolução tecnológica
Terça-feira, Dezembro 26, 2017

Na sua marcha inexorável e irreversível em direcção ao progresso a humanidade encontrou sempre respostas para os problemas criados por esse mesmo progresso e nem podia ser de outra maneira.

Não podia ser de outra maneira porque, se fosse, teríamos de admitir que a humanidade é irracional, se autoflagela, infringindo a si mesma mais sofrimento quando quer mudar para melhor, quando quer construir um Mundo mais justo, mais fraterno, mais equilibrado.

O mundo evolui quando a humanidade desafia os seus limites na ânsia de se afirmar como o ser mais inteligente ao cimo da terra, um humanóide cada vez mais perfeito, mais senhor das suas capacidades, mais próximo dos deuses. Na fase actual do desenvolvimento, com a revolução tecnológica em curso, a humanidade aproxima-se do sol, substituindo trabalho árduo por robots, gerindo fábricas, portos e blocos operatórios através da inteligência artificial, desafiando a lógica e a razão.

Esse crescimento transporta dor, preocupação como cada nova etapa da vida sempre acarretou. Prevê-se que nos próximos cinquenta anos vão desaparecer milhões de empregos e mais de quarenta mil especialidades.

Sendo certo que aparecerão novos empregos, também parece certo que serão insuficientes para absorver as vagas deixadas pela automatização da produção. Então haverá desemprego e falta de emprego, um quadro potencialmente desastroso, equivalente ao anunciado por Malthus a propósito do crescimento demográfico. Perante tal perspectiva, há quem antecipe o estabelecimento de um rendimento universal mínimo para compensar a não existência de trabalho. Outros preferem ignorar na esperança que não venha a ser tão catastrófico como se pinta.

E no entanto a caminhada da humanidade em direcção a esse modelo de sociedade está a acontecer debaixo dos nossos olhos. Países do norte da Europa e a Suíça criaram o Rendimento Básico Incondicional, uma experiência que pretende controlar os danos e garantir o funcionamento da economia capitalista. Na verdade não havendo salários também não há quem compre e o sistema colapsa.

O homem é insatisfeito e insaciável. Com a revolução industrial pensou que tinha chegado ao limite, mas não chegou. Descobriram-se novas técnicas de produção, reinventaram-se outros métodos e processos e outro modelo organizativo. Veio o taylorismo, a divisão técnica do trabalho, mas também a divisão social do trabalho. Ao modelo de economia de mão-de-obra intensiva, própria da agricultura, sucedeu o modelo de capital intensivo, com o cortejo de lutas operárias contra a mecanização da produção.

Mais de cem anos mais tarde, a indústria perdeu peso relativo para os serviços e novos desafios surgem no horizonte da humanidade. É o tempo da terciarização da economia e da deslocalização das indústrias, no fim do século XX. Da indústria automóvel à indústria naval e têxtil, do norte da Europa para o sul da Europa e daqui para oriente, China, Camboja, Vietnam, India, Bangladesh num vendaval que varreu as cidades industriais fazendo desaparecer as cinturas operárias de Paris, Londres, Manchester, Detroit, Lisboa, Setúbal, Guimarães, Pevidém, Vale do Selho. Zonas outrora prósperas, dinâmicas, pujantes, onde pontuavam empresas altamente mecanizadas e com milhares de trabalhadores (Coelima, com 5000 trabalhadores) subsumiram tornando-se cidades-fantasma povoadas por vultos sem ocupação definida.

As metamorfoses então operadas estão agora, muitos anos depois, a dar sinais de inconformismo e raiva acompanhados por uma descrença generalizada no sistema partidário dominante, mas com enfoque na social-democracia e na democracia cristã, ou seja naqueles que foram governo e prometeram mas não cumpriram sistematicamente, convencidos da sua inimputabilidade política. Os recentes actos eleitorais nos EUA, na França, na Holanda, na Itália, em Espanha, na Grécia significaram desastres eleitorais para os partidos socialistas amplamente conotados com práticas políticas da direita que prometeram um capitalismo de rosto humano, em que a riqueza produzida seria mais bem distribuída e sem o recurso à luta.

Este processo teve gestação lenta, porém segura, reportada aos finais do século passado, com o advento do eurocomunismo.

A Itália dos anos 70 do século passado era um laboratório de ideias. Como contraponto ao denominado pensamento ortodoxo, intelectuais brilhantes desenvolveram teses inovadoras que acreditaram poderem conduzir a classe operária ao poder por meios não violentos.

O pensamento marxista foi enriquecido por intelectuais das várias áreas do saber que pensando a prática que os rodeava eram verdadeiros continuadores do brilhantíssimo Gramsci.

O cinema, por exemplo, brindou-nos com obras-primas como “a classe operária vai para o paraíso”, de Élio Petri, ou o fabuloso fresco “1900”, de Bertolucci, propondo-nos meditação séria e atenta sobre o devir do trabalho moderno, a automatização crescente dos processos produtivos, a armadilha da produtividade, o pleno emprego e a apropriação da mais-valia e daí à consciencialização de classe versus alienação era o passo de um anão, como diria Godinho.

No plano das ideias Itália tornou-se diletante, com a contínua e insensata busca pelo diferente, da inovação pela inovação, mas os olhares que acrescentou no campo fértil da lutas das ideias permite hoje uma abordagem consistente sobre a robotização, a inteligência artificial e as novas formas de trabalho.

Acompanhando o que se passava à sua volta sem nunca se prostituir, o PCP soçobrou e tirou partido do que de positivo foi acrescentado ao pensamento marxista. Na posse desse valioso instrumental deu um passo que parecendo curto era porém de gigante e temerário para a estrutura partidária: acrescentou a partido da classe operária um “e de todos os trabalhadores” abrindo desse modo a porta a uma maior representatividade e mais do que isso, acompanhando os novos tempos que se anunciavam.

Agora, quando em cima da mesa surgem debates sobre o trabalho do futuro e o futuro do trabalho, quando alguns discutem o declínio irreversível da segurança social e das reformas e pensões, o PCP, coerentemente, bate-se por uma justa e equilibrada repartição da riqueza impulsionada pelas novas tecnologias, opondo-se a que os ganhos tecnológicos revertam apenas para o capital.

É neste contexto de substituição de mão-de-obra por robots que surge a exigência de melhores salários e menos tempo de trabalho, decisão que parecendo fora de moda corporiza aspirações profundas dos trabalhadores e reafirma o PCP como vanguarda que sabe apontar o caminho.

Cem anos após a Revolução de Outubro de 1917 na Rússia entre as trevas de um novo dia anunciam-se novos motivos para acreditar na humanidade.